A Cidade e as Serras

 A cidade e as serras, Eça de Queirós

Estefânia Francis Lopes

Mestra em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela USP

Professora de Literatura no Cursinho Popular Clarice Lispector

                                                          

Na lista de livros previstos como leitura obrigatória no vestibular da FUVEST, encontramos obras de diversos estilos literários. Eça de Queirós figura entre os importantes escritores do Realismo português (1865-1890), uma concepção de arte oposta à concepção do idealismo romântico, uma vez que os escritores realistas defendiam a ideia de uma expressão de arte comprometida com a realidade social e, ao mesmo tempo, associada à ciência.

O romance A cidade e as serras (1901), em uma fase menos radical quanto às críticas encontradas em obras anteriores, como O crime do padre Amaro (1875), O primo Basílio (1880) e Os Maias (1888), demarca uma nova fase, na qual o escritor faz as pazes com o país que tanto criticou. Assim, surge uma visão mais compreensiva do ser humano, mas ainda atenta aos problemas sociais.

José Maria Eça de Queirós nasce em Póvoa do Varzim, próximo ao Porto, em 1845. Criado inicialmente pelos avós é enviado, com a morte desses, para um colégio interno, onde conhece Ramalho Ortigão, amigo que o influencia e com quem faz parcerias nos caminhos literários. Formado pela Faculdade de Direito de Coimbra, exerce por pouco tempo carreira nessa área. Entre a atuação na direção de um semanário de Évora e o serviço diplomático, realiza diversas viagens passando pelo Oriente, América e Antilhas, lugares e experiências de relevante inspiração para suas obras.

A cidade e as serras foi um dos últimos textos de Eça de Queirós, pois quando o escritor faleceu, em 1900, o romance estava na fase de revisão de provas na tipografia. Dessa forma, o autor conseguiu revisar até o começo do capítulo IX, ficando a cargo de seu amigo Ramalho Ortigão, a pedido da viúva, o término da revisão e do texto a partir do final do capítulo X do manuscrito, sendo o livro publicado em 1901.

Vale lembrar que o contexto histórico do período do Realismo em Portugal é caracterizado pela Segunda Revolução Industrial, por uma crescente população urbana oriunda dos campos e, consequentemente, pelo progresso das cidades e pelo aumento das diferenças entre as classes sociais. O que não passa despercebido por Eça de Queirós que, seguindo os padrões do estilo literário da época, mostra em suas narrativas uma preocupação com o presente.

E é nesse ambiente que o enredo de A cidade e as serras nos é apresentado pelo personagem-narrador Zé Fernandes, amigo de Jacinto, sendo esse último um jovem muito rico, que “rodeia-se do que a civilização tem de mais novo e mais promissor em termos de tecnologia e de conhecimento”, além de “participar ativamente da vida social” (Franchetti, 2013) da cidade de Paris. Os amigos são as duas personagens principais. Como observa Paulo Franchetti (2013), Jacinto “é o herói da matéria narrada”, enquanto Zé Fernandes é “o narrador que conta, comenta e avalia a vida do primeiro”.

A temática, indicada no título, do campo versus cidade revela no decorrer da narrativa que a fórmula de felicidade idealizada por Jacinto, no início do romance, quando ele ainda se encontra na efervescente Paris – “Suma Ciência × Suma Potência = Suma Felicidade” – não passa de uma ilusão. O encantamento e entusiasmo da personagem com o progresso da civilização vão ruindo aos poucos, diante de uma sociedade que se mostra fútil, caracterizada pela hipocrisia e conveniência, como ilustra o trecho a seguir:

Assim, meu Jacinto, na Cidade, nesta criação tão antinatural onde o solo é de pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa o céu e a gente vive acamada nos prédios como o paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se murmuram através de arames – o homem aparece como uma criatura anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem sentimento [...]. (Queirós, 2006, p. 71)

Zé Fernandes também revela ao amigo, através de suas ideias críticas, uma realidade social de desigualdade ao passearem pela cidade,

[...] o meu Príncipe vergou a nuca dócil, como se elas [as ideias] brotassem, inesperadas e frescas, duma Revelação superior, naqueles cimos de Montmartre:

- Sim, com efeito, a Cidade... É talvez uma ilusão perversa!

[...] E se ao menos a Cidade tornasse feliz a totalidade dos seres que a mantêm... Mas não! Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade os gozos especiais que ela cria. O resto, a escura, imensa plebe, só nela sofre, e com sofrimentos especiais que só nela existem! (Queirós, 2006, p. 71)

 

Aos poucos o contato com essa “ilusão perversa” faz com que Jacinto sinta-se cada vez mais entediado, como bem exemplifica o diálogo entre Zé Fernandes e Grilo, o empregado de Jacinto:

Uma noite no meu quarto, descalçando as botas, consultei o Grilo:

- Jacinto anda tão murcho, tão corcunda... Que será, Grilo?

O venerando preto declarou com uma certeza imensa:

- S. Ex.ª sofre de fartura. (Queirós, 2006, p. 66)

 

A necessidade de viajar para Tormes, província que aparece como metonímia de um Portugal apegado às tradições, com todos os imprevistos que essa viagem proporciona ao personagem, apresenta o contraponto indicado no título. O mundo rural, distante de todo o aparato tecnológico da cidade parisiense, promove uma renovação na vida de Jacinto. É possível observar isso na retomada da conversa, de capítulos atrás, de Zé Fernandes e Grilo, e no qual este exclama: “- Sua Ex.ª. brotou!”. Como a narrativa metafórica utilizada pelo personagem-narrador faz transparecer:

[...] Sim! Aquele ressequido galho da Cidade, plantado na serra, pegara, chupara o humo do torrão herdado, criara seiva, afundara raízes, engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara em flores, forte, sereno, ditoso benéfico, nobre dando frutos, derramando sombra. E abrigados pela grande árvore, e por ela nutridos, cem casais em redor bendiziam. (Queirós, 2006, p. 178).

 

Esse romance, contudo, como aponta Franchetti (2006, p.3), “mais do que uma tipologia em que se polarizam a cidade e o campo, nos apresenta uma discussão sobre o que fazer ante a sociedade burguesa em que o valor supremo é o dinheiro e tudo o que ele pode comprar”. Vale referir também o quanto esse texto, se, por um lado, traz marcas mais do seu próprio tempo, por outro, “também é verdade que há nele um aspecto muito atual, que é a sátira ao culto da tecnologia e do maquinismo” (Franchetti, 2006, p. 3). Dessa forma, Eça de Queirós nos faz refletir sobre questões referentes à sustentabilidade e ao consumo desenfreado cuja pertinência é bastante atual.

 

Referências bibliográficas

FRANCHETTI, Paulo. Entre o campo e a cidade. In: A cidade e as serras. 2ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2006.

______. Apresentação. In: A cidade e as serras. 2ª ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2013.

Manual do candidato FUVEST (2016 e 2017).

QUEIRÓS, Eça de. A cidade e as serras. São Paulo: 2ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2006.