Claro Enigma

Claro Enigma, Carlos Drummond de Andrade

Autora: Renata de Carvalho Nogueira

Mestra em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo

Professora de Gramática e Redação no Cursinho Popular Clarice Lispector

 

Como uma das obras que compõem a lista de leituras obrigatórias da Fuvest 2017, Claro Enigma (1951) é o sétimo livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade, antecedido por Alguma Poesia (1930), Brejo das Almas (1934), Sentimento do Mundo (1940), José (1942), A Rosa do Povo (1945) e Novos Poemas (1948).

Carlos Drummond de Andrade nasce em Itabira, no interior de Minas Gerais, em 1902. Reconhecido como um dos principais poetas da segunda geração modernista da década de 1930, o mineiro começa sua vida literária com a publicação de alguns poemas em revistas especializadas, após a Semana de Arte Moderna (1922). Torna-se funcionário público em 1929, e, ao longo da carreira burocrática, escreve poesias, contos e crônicas até seu falecimento, em 1987, no Rio de Janeiro.  

Muito se discute sobre a individualidade do autor e, principalmente, o modo como esta se altera historicamente. Desse modo, a obra drummondiana costuma ser dividida, didaticamente, em quatro fases: a fase gauche ou fase do “eu maior que o mundo” (1930-1940), na qual o humor e a ironia são características presentes, além do isolamento e do individualismo; a fase social ou fase do “eu menor que o mundo” (1940-1945), marcada por uma poesia engajada com os problemas sociais, em virtude de uma postura histórica ativa frente ao período de guerras e à conturbação política (Segunda Guerra Mundial e ditatura de Getúlio Vargas); a fase do não ou fase do “eu igual ao mundo" (1950-1962), constituída por uma poesia mais metafísica, reflexiva e pessimista, na qual se observa um grande desencanto político, que afasta o poeta do engajamento social, abordando temas como morte e vida, infância e velhice, amor e tempo. Claro enigma representa o livro que introduz tal vertente, a qual inclui obras, como Fazendeiro do ar (1955), Vida passada a limpo (1959) e Lição de coisas (1962). Por fim, a fase da memória (1970-1980), que compreende o período de lembranças da infância na cidade natal, além de reflexões universais sobre o tempo e a memória. A principal obra dessa fase é Boitempo (1973).

A obra Claro Enigma é composta por quarenta e um poemas escritos entre o final dos anos 40 e o início dos 50, subdivididos em seis partes, nesta ordem: “Entre Lobo e Cão” (dezoito poemas), “Notícias Amorosas” (sete), “O Menino e os Homens” (quatro), “Selo de Minas” (quatro), “Os Lábios Cerrados” (seis), “A Máquina do Mundo” (dois).

O livro é considerado um rompimento no trabalho do poeta mineiro, tendo em vista que demonstra um projeto artístico inteiramente contrário às obras da década anterior. Em oposição à poesia participante e engajada em questões sociais que vinha realizando, principalmente em Sentimento do Mundo (1940) e A Rosa do Povo (1945), o poeta-gauche apresenta, em Claro enigma, um eu-poético introspectivo, filosófico e melancólico, voltado para questões mais reflexivas sobre a condição humana.

O impacto da Guerra Fria e a constante ameaça de bomba atômica, os quais atormentavam um mundo dividido em dois blocos – o capitalista, liderado pelos Estados Unidos, e o socialista, pela União Soviética – conduzem o poeta de Itabira à perplexidade e ao pessimismo. Logo, Drummond reconhece, de forma angustiada, a opressão e o esmagamento do ser, independente da posição ideológica adotada. Esse indivíduo desiludido pode ser observado nos versos de “Cantiga de enganar”: “O mundo não vale o mundo, / meu bem. / Eu plantei um pé-de-sono, / brotaram vinte roseiras. / Se me cortei nelas todas / e se todas se tingiram / de um vago sangue jorrado / ao capricho dos espinhos, / não foi culpa de ninguém” (Andrade, 2015, p. 230).

Desse modo, Claro enigma apresenta a formulação de um novo projeto literário, marcado pela análise das angústias humanas diante das transformações sociais da primeira metade do século XX. O poeta abandona a busca por soluções para os problemas sociais, a esperança no homem politizado e a crença na comunhão entre estes (características de sua poesia anterior), passando a exprimir um desencanto melancólico em relação ao absurdo da humanidade e ao vazio da vida:

O movimento do poeta em direção à realidade é um movimento essencialmente frustrado, impedido não apenas pela dificuldade ou impossibilidade de apreensão do real [...], mas sobretudo pelo imperativo ético de não escamotear essa inapreensibilidade, ou antes, expô-la às claras (Sterzi, 2002b, p. 64).

As referências explícitas ao contexto histórico são abandonadas em nome de um universo filosófico e metafísico, marcado pelo mergulho no íntimo do ser humano, na tentativa do eu-poético proteger-se do caos presente no mundo externo, ao mesmo tempo em que se busca uma esperança para a vida. Logo, percebe-se, na obra, como o tom indagativo e reflexivo ocupa um espaço antes destinado às propostas de transformação tão recorrentes em suas produções.

Segundo Alfredo Bosi (1997, p. 495), a partir de Claro enigma, o poeta de Itabira passaria a representar a voz de um tempo determinado pela dificuldade de transcender a crise de sentido e de valor, que marcou os anos de guerra. Tal frustração, ante a conjuntura histórica, dita ao poeta a tarefa de:

[...] escavar o real mediante um processo de interrogações e negações que acaba revelando o vazio à espreita do homem no coração da matéria e da história. O mundo define-se como um “vácuo atormentado, um sistema de erros”.

Ademais, o mergulho no íntimo e a postura de desencanto são anunciados por Drummond desde a abertura da obra. A epígrafe do poeta simbolista francês Paul Valéry: “Les évenements m’énnuient” (os acontecimentos me entediam/aborrecem) tem sido vista pela críticacomo um lema do livro. Diante do processo histórico e, por consequência, da perda do sentimento coletivo, o poeta gauche afasta-se da superfície factual da história para adentrar as camadas mais profundas do ser.

Em Claro Enigma, nota-se um sujeito ambíguo, o qual, em um movimento dialético, mostra-se fechado em si mesmo e, em outros momentos, aberto ao mundo na busca pela essência das coisas. Trata-se do livro mais rigorosamente arquitetado de Drummond, tendo em vista a presença de paradoxos e oximoros desde o título. Aliás, neste, observa-se a incomum união entre claro e escuro, compreensão e mistério, aceitação e negação.

A forma dos poemas indica uma preocupação com o clássico, tendo em vista a ocorrência de formas fixas, versos rimados e inclusive sonetos, como “Oficina irritada”: “Eu quero compor um soneto duro / como poeta algum ousara escrever. / Eu quero pintar um soneto escuro, / seco, abafado, difícil de ler” (Andrade, 2015, p. 232). Sobre variados temas, os poemas versam sobre vida, amor, ausência, tempo e a própria poesia. Além disso, abordam o homem em suas questões existenciais em busca da compreensão metafísica. Em “Amar”, por exemplo, o poeta apresenta a angústia e o vazio humano como reflexos da ausência desse amor: “Este o nosso destino: amor sem conta, / distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, / doação ilimitada a uma completa ingratidão, / e na concha vazia do amor a procura medrosa, / paciente, de mais e mais amor” (Andrade, 2015, p. 234).

Destarte, a obra, em virtude do forte existencialismo niilista, chegou a ser acusada, na época de sua publicação, de alienada em relação às questões sociais e, dessa forma, sua qualidade foi interpretada como inferior em comparação aos trabalhos anteriores de Drummond. Entretanto, hoje, a crítica literária reconhece o valor do livro. Para Ítalo Moriconi (2002, p. 90), este é “não apenas o melhor livro de poesia do século, como também a obra mais exemplar do significado profundo do deslocamento estético e intelectual representado pelo modernismo canônico”.

Em suma, Claro enigma distancia-se da poesia engajada que marcara a obra drummondiana dos anos 1930 até 1945, tendo em vista a forte presença de uma melancolia histórica em virtude da decepção do poeta gauche em relação à utopia revolucionária e às políticas totalitárias stalinistas adotadas pelos partidos comunistas durante a Guerra Fria.  A obra é marcada pela contradição do eu-poético, representada pelo constante embate entre o eu e o mundo. Além disso, vale destacar a variedade de formas e medidas, como pode ser verificado na reapropriação do legado clássico, unindo a rigorosidade formal à sensibilidade moderna. Por fim, o livro revela a outra face de Drummond, um poeta mais amargo perante a vida repleta de conflitos, na tentativa de conciliar esses contrários.

 

Referências bibliográficas

ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova reunião: 23 livros de poesia. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.     

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 3ª edição. São Paulo: Cultrix, 1997.

Manual do candidato FUVEST (2016 e 2017).

MORICONI, Ítalo. Como e por que ler a poesia brasileira do século XX. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002a.

STERZI, Eduardo. Drummond e a poética da interrupção. In: Drummond revisitado. Org.: Reynaldo Damazio. São Paulo: Unimarco Editora, 2002b, p. 50-90.