Editores Artesanais Brasileiros

Exposição: Editores Artesanais Brasileiros
Livros artesanais de João Cabral de Melo Neto, Manuel Segalá, Geir Campos, Thiago de Mello, Pedro Moacir Maia, Gastão de Holanda e Cleber Teixeira – homenageado especial – no acervo da BBM
Curadoria: Cristina Antunes
Período: 10/08 a 10/11/2013

Editores artesanais elaboram livros em um processo individualizado para cada texto – eles buscam construir a melhor representação gráfica para obra: o tipo mais adequado, o espaçamento mais pertinente, o melhor tamanho de volume. Essa atividade possibilita a forte presença, inclusive manual, do editor em cada etapa da produção de um livro.
Esses editores intentam, de certa forma, retornar aos primórdios da produção gráfica. Como disse o editor Cleber Teixeira em entrevista a Gisela Creni: os editores artesanais buscam “a pureza dos primeiros tipógrafos” e têm como referência “as primeiras editoras, as primeiras gráficas do início da imprensa, quando o editor era também um tipógrafo”.

A referência primordial para esses artistas é a impressão da Bíblia por tipos móveis por Johannes Gutenberg, em cerca de 1450, na cidade de Mainz, Alemanha – momento inaugural das técnicas de reprodução em série em uma atividade anteriormente realizada através da cópia manuscrita. Apesar de produzidos em série, os livros impressos até 1530 mantêm forte similitude com o livro manuscrito: os caracteres tipográficos imitam a caligrafia dos livros manuscritos, enquanto iluminuras e os títulos são realizados a mão, transformando em objeto único aquilo que foi impresso em série.

Gisela Creni, em Editores Artesanais Brasileiros, livro a partir do qual foi elaborada a exposição de mesmo nome, retrata a atuação de sete editores artesanais:
João Cabral de Melo Neto - na editora O Livro Inconsútil;
Manuel Segalá - na Philobiblion;
Geir Campos - na Hipocampo;
Thiago de Mello - na Hipocampo;
Pedro Moacir Maia – na Dinamene
Gastão de Hollanda - nas editoras O Gráfico Amador, Mini Graf e Fontana;
Cleber Teixeira na - Noa Noa.

Comentando as atividades desses editores, Carlos Drummond de Andrade, em texto citado por Gisela Greni, salienta dois aspectos dessa produção artesanal: o primeiro é a presença, em cada livro, do conjunto das marcas do esforço individual e físico envolvidos em sua elaboração. Diz o poeta: “O livro de tiragem mínima (...) contribui para reintegrar o homem em sua dignidade, valorizando o artesanato na era da fabricação em milhões”, explicitando que o editor artesanal “concilia (...) a criação mental e o esforço físico, e nos oferece produtos que trazem a dupla marca de nossa condição.”.

Outro aspecto destacado por Carlos Drummond de Andrade é a materialidade específica desses livros. Acerca da editora Dinamene, o poeta faz uma observação que pode se aplicar ao conjunto dessas edições artesanais: “Se o poema é uma realização abstrata, uma exaltação de vapores, sua vestimenta física dá-lhe a concepção de objeto visitável. A leitura torna-se visual-tátil”.

Nesse mesmo sentido, referindo-se ao editor Cleber Teixeira, o poeta e literato Augusto de Campos, em texto citado por Gisela Creni, afirma: “ele é capaz de dar a um livro o mesmo tratamento que um poeta dá a um poema.”.
A literatura e a poesia brasileira muito devem à atuação editorial desses artesãos e artistas gráficos, que o lúcido e arguto trabalho de Gisela Creni registra e resgata.

Sandra Reimão (do prefácio a Editores Artesanais Brasileiros)