Iracema

Iracema, José de Alencar

Matheus S. Casari

     Obra marcante da fase indianista do Romantismo brasileiro, Iracema (1865), do cearense José de Alencar, evidencia o que, em aspectos literários, pode-se dizer a busca por uma identidade genuinamente brasileira. Dados os efeitos da Independência do Brasil em 1822 e a formação do Estado imperial nas décadas seguintes, o país vivia neste período um entusiasmo nacionalista que se implantou na estética romântica da literatura brasileira. Os escritores desta fase, intitulados românticos, tanto da prosa quanto da poesia, absorveram os ideais nacionalistas do romantismo europeu e os introduziram – ou tentaram – às condições inerentes à nossa realidade.

     Ao fazer uso de uma linguagem rica em metáforas e palavras indígenas, não somente em Iracema, como em outras obras de cunho indianista (pode-se citar O Guarani e Ubirajara), o escritor demonstra características que o levam a um no entendimento e testemunho particulares da cultura brasileira.

     Para afirmar esta cultura genuinamente brasileira, o autor busca na figura do indígena a melhor representação da natividade brasileira, de terra e de cultura. Como a intenção é clara em transmitir a ideia de uma pureza brasileira, de uma figura humana isenta das profanações dos outros homens, a figura do nativo brasileiro, o indígena por excelência – melhor dizendo, a indígena – é bastante idealizada. Só assim, com a chegada do homem branco, será possível retratar a ruptura de um paraíso que até então vigorava.

     Pensando nessa genuinidade brasileira, faz-se necessário ler o termo “cor local”, que mostra-se como particularidade específica do romantismo brasileiro, tendo em vista essa base na essência do nacional, representando uma valorização da natureza tropical, das expressões indígenas e da idealização do indígena. Este último, também nestes moldes, é condicionado a uma figura de heroi, remetendo aos cavaleiros medievais europeus. O mesmo autor que propõe um desligamento da Europa e assume uma valorização do elemento nativo acaba por voltar e usufruir do molde opressor. Combinado a essa importância de apresentar uma “cor local”, a técnica narrativa utilizada na obra pelo autor  consiste no uso intenso do que a crítica chama de prosa poética. Rica em adjetivos e descrições que destacam a beleza nativa dos recursos naturais do país e de sua gente nativa, as palavras da narrativa combinam a forma da prosa e a estética da poesia.

     Dada esta estética poética do texto, encontra-se na obra uma valorização por alegorias. O romance do homem branco, colonizador, europeu, Martim e da nativa brasileira, a indígena Iracema, é uma metáfora da criação do estado do Ceará. Através da narrativa, o autor cria uma lenda de como o estado teria sido formado. Ressalta-se, além do mais, a simbologia embutida em sua prosa. Iracema é, em seu conjunto, uma obra figurativa, metafórica. A história de amor simboliza o surgimento do povo brasileiro, em que a indígena representa a América virgem (Iracemaum anagrama da palavra América) e Martim representa a Europa colonizadora. Da união do índio nativo com o colonizador branco europeu nasce o povo brasileiro, representado pelo filho Moacir. Dada a simbologia da obra, não é estranho o primeiro brasileiro, enquanto fruto da miscigenação, ter esse nome, cujo significado, de origem tupi, remete a algo como “o que vem da dor”. Por ser tão alegórica  etambém por apresentar diversas palavras indígenas e termos desconhecidos do leitor não familiarizado com o contexto em questão (botânico, indígena etc), destaca-se aqui também a importância das notas de rodapé, presentes nas edições da obra, feitas pelo próprio autor, que buscam aproximar o leitor leigo dos termos utilizados pelo narrador.

     José de Alencar, um dos maiores expoentes não somente do indianismo romântico, como do Romantismo brasileiro como um todo (basta lembrar de Senhora e Til), busca investir numa literatura nacional, mesmo que com falhas, fazendo florescer Iracema. Obras como esta vista e O Guarani e Ubirajara, apresentam, sob o alicerce da idealização, uma tentativa de se (re)estabelecer uma identidade para a “livre” e “independente” pátria brasileira.