Mayombe

Mayombe, Pepetela

Estefânia Francis Lopes

Mestra em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela USP

Professora de Literatura no Cursinho Popular Clarice Lispector

                                      

    O romance Mayombe, do escritor angolano Pepetela, é o representante das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na lista de livros previstos como leitura obrigatória no vestibular da FUVEST, desde 2016. Segundo o Manual do Candidato (2017/2018), espera-se do participante, oriundo do Ensino Médio “um certo repertório de leituras de textos literários” de obras representativas dos diferentes períodos das literaturas em língua portuguesa. Dentre essas literaturas, como identificado no item IV, sobre as Literaturas Africanas em Língua Portuguesa, a leitura da coletânea de contos Luuanda, de Luandino Vieira, também é prevista.

    Mayombe, publicado em 1980, retrata um grupo de guerrilheiros na luta pela independência de Angola, em incursão na floresta de Mayombe, localizada no enclave de Cabinda, em Angola. Dessa forma, podemos verificar a importância do espaço na narrativa, como ilustra o trecho a seguir sobre a instalação da base:

O Mayombe tinha aceitado os golpes dos machados, que nele abriram uma clareira. Clareira invisível do alto, dos aviões que esquadrinhavam a mata tentando localizar nela a presença dos guerrilheiros. As casas tinham sido levantadas nessa clareira e as árvores, alegremente, formaram uma abóboda de ramos e folhas para as encobrir. [...] Os paus mortos das paredes criaram raízes e agarraram-se à terra e as cabanas tornaram-se fortalezas. E os homens, vestidos de verde, tornaram-se verdes como as folhas e castanhos como os troncos colossais. A folhagem da abóboda não deixava de penetrar o Sol e o capim não cresceu em baixo, no terreiro limpo que ligava as casas. Ligava, não: separava com amarelo, pois a ligação era feita pelo verde.

Assim foi parida pelo Mayombe a base da guerrilha (2013, p.67).

    A floresta, que dá título ao livro, é quase um personagem, elemento central na construção do enredo que apresentará ao leitor diversos pontos de vista sobre a ação da guerrilha e os conflitos e anseios dos guerrilheiros, uma vez que, alguns destes, além de personagens, são também narradores. O narrador titular, em 3ª pessoa, compartilha a narração com alguns guerrilheiros, em 1ª pessoa, na incorporação de uma pluralidade de vozes, configurando, assim, um romance polifônico. Segundo Pepetela, em uma das suas visitas à USP, em 2013, tem início em Mayombe a ideia de que um escritor não deve ser um tirano, mas sim dividir a palavra com os personagens ou com outros narradores.

    Na epígrafe que abre o romance, Pepetela aproxima o mito Ogum, de origem africana, do mito Ocidental, Prometeu. Vale lembrar que o primeiro, ao ter como ofício moldar o ferro ao calor do fogo, é o símbolo da transformação, enquanto o segundo, oferece à humanidade o fogo como símbolo de esperança no futuro. Dando continuidade à estrutura do romance, na sequência o livro é dividido em 5 capítulos, que apresentam nos respectivos títulos a essência de cada parte. Assim, temos: capítulo I – A Missão, cap. II – A Base, cap. III – Ondina, cap. IV – A Surucucu e cap. V – A Amoreira. O livro finaliza com um Epílogo, que permite ao leitor identificar o narrador titular.

    No desenrolar da narrativa nos deparamos com os conflitos e dúvidas de cada guerrilheiro, como também com as contradições refletidas em preconceitos e tribalismos, herança do predomínio colonial. Assim, a partir das vozes de Teoria, Milagre, Mundo Novo, entre outros personagens-narradores, “o burocratismo e tantos outros fantasmas surgem como faces variadas da cisão trazida pela invasão colonial”, segundo Rita Chaves (2009, p. 133). Contudo, mesmo com as diferenças e com motivações de origens diversas, os guerrilheiros mantinham em comum o objetivo de derrotar o inimigo, ou seja, o invasor português. Portanto, na luta pela independência os guerrilheiros “estavam todos juntos”, segundo o autor.

    O romance Mayombe foi escrito durante a experiência do autor na guerrilha. Sendo Pepetela o codinome assumido por Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, que nasceu em 1941, em Benguela. O escritor angolano, em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, em março deste ano, foi assim apresentado: “o codinome Pepetela é a junção do homem letrado com o guerrilheiro. Entre as armas e a literatura, o ex-combatente do MPLA (Movimento Pela Libertação de Angola) ajudou a forjar o caminho cultural e político de um país que há 41 anos conquistaria sua independência e deixaria o histórico colonial português para trás”. Atualmente, divide a reconhecida carreira literária – foi vencedor do Prêmio Camões, em 1997 – com a de professor universitário da Faculdade de Arquitetura da Universidade Agostinho Neto, em Luanda.

    Podemos dizer que a junção entre o intelectual e o guerrilheiro está refletida no romance de diversas formas. O personagem Teoria seria um exemplo evidente dessa combinação, pois como ele mesmo se apresenta: “Os meus conhecimentos levaram-me a ser nomeado professor da Base. Ao mesmo tempo, sou instrutor político, ajudando o Comissário” (2013, p. 21). No entanto, destacamos Sem Medo como modelar, tanto pela sua posição de comandante frente aos guerrilheiros, como na sua relação de mais-velho com o mais-novo, o Comissário Político. O comandante Sem Medo, importante personagem da trama, “nasceu com gestos de herói”, segundo o autor. Porém, vale lembrar, não o herói idealizado, mas humanizado, que assume as suas dúvidas. Para Marina Ruivo (2009, p. 246), “Sem Medo, inclusive, frequentemente está ensinando, educando. Ele é a vanguarda, o que vai à frente nas ações e, especialmente, o que ensina por meio do exemplo”.

    Como procuramos levantar nessa breve introdução sobre o romance Mayombe, o texto literário que apresenta, por vezes, também um caráter didático ao refletir sobre as esperanças (e dúvidas) dos guerrilheiros angolanos diante do novo mundo que virá após a conquista da independência, nos leva a conhecer uma parte importante da história de Angola, sem perder a riqueza da elaboração artística literária.

 

Referências bibliográficas

CHAVES, Rita; MACÊDO, Tania (orgs.). Mayombe: Um romance contra correntes. In: In: Portanto... Pepetela. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009.

HENRIQUE, Guilherme. O mundo de Pepetela. Le Monde Diplomatique Brasil. 14 Mar. 2017. Disponível em: http://diplomatique.org.br/o-mundo-de-pepetela/. Acesso em: 27 Ago. 2017.

Manual do candidato FUVEST (2016 e 2017).

PEPETELA. Mayombe. São Paulo: LeYa, 2013.

RUIVO, Marina. Mayombe: Angola entre o passado e o futuro. In: Portanto... Pepetela. (orgs.) CHAVES, Rita; MACÊDO, Tania. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009.