"Memórias de um sargento de milícias"

Marques Rebelo em Vida e Obra de Manoel Antonio de Almeida (Rio, 1943) narra as circunstâncias em que foram escritas as Memorias de um sargento de milicias: “Até 1852, o Correio Mercantil aparecia aos domingos inteiramente em francês e trazia mesmo no cabeçalho a seguinte indicação: — jornal quotidien paraissant em français Le dimanche seulement —.” Esse número de domingo foi substituído pela A Pacotilha em prosa e verso. Antônio César Ramos, chefe do escritório do jornal, animou Manoel Antônio de Almeida a escrever um romance que saísse nesse suplemento do jornal. O primeiro capítulo das Memorias saiu em 27 de junho de 1852 no número 73 da Pacotilha. A publicação seriada teve um certo sucesso que animou o autor a publicá-lo em volume. Recorreu ao processo de assinatura muito em voga na época. O primeiro volume saiu em 1854 e o segundo em 1855. A tiragem foi pequena, pois as assinaturas não foram muitas, e sobraram exemplares. Em 13 de abril de 1855 o autor inseria no Correio Mercantil o seguinte anúncio: “Achando-se terminada a distribuição pelos assinantes deste curioso romance, vende-se os exemplares que sobraram unicamente na tipografia desta folha. Custam 2$000 os dois volumes em brochura. Previne-se que a edição acha-se quase esgotada”. Marques Rebelo nota: “Em vão. As Memorias não se esgotaram, perderam-se no fundo da redação, comidas pelos ratos ou pelo mofo, não constituíram em livro um sucesso literário”. Nota ainda que essa edição é a única que foi revista pelo autor.

Dessa primeira edição só conhece Marques Rebelo um exemplar na Biblioteca Nacional, na coleção Ramos Paz. Ouvi dizer a um livreiro do Rio de Janeiro que sabia quem tinha outro. É possível, mas eu só conheço, em mãos particulares, este meu exemplar que comprei no Gazeau, em São Paulo, há décadas.

A segunda edição, também raríssima, é de Pelotas, Tipografia do Comércio de Joaquim F. Nunes, 1862, em 2 volumes.

A terceira foi publicada na Bibliotheca Brasileira, de Quintino Bocaiúva; forma os vols. IX (dezembro de 1862) e X (janeiro de 1863) dessa coleção. Esses dois volumes foram reunidos num só em 1863. Essa edição foi revista e prefaciada por Machado de Assis que diz: “... entendeu Quintino Bocaiúva dever fazer a reimpressão das Memorias..., hoje raras e cuidadosamente guardadas por quem possui algum exemplar”.

A 4ª ed. em 2 vols. é de 1876, tipografia e litografia Carioca, faz parte da série Leituras Populares editada por Dias da Silva Júnior, é precedida de uma introdução literária por Bethencourt Silva.

A 5ª ed. faz parte da Coleção Brasileira do “editor-livreiro” Domingos Magalhães. Tem uma capa ilustrada de Julião Machado e contém ilustrações não assinadas. Essa edição é muito errada, diz Marques Rebelo, mas é rara.

A 6ª ed. é da Garnier, 1900, precedida de uma introdução de José Veríssimo. “É também muito errada”.

A 7ª ed. é de São Paulo, Cia Gráfico Editora Monteiro Lobato, 1925. O texto foi completamente “corrigido”.

As outras edições (Rio, Jornal do Brasil, 1927 — S. Paulo, Cultura Brasileira, 1937 — S. Paulo, Livraria Martins, 1941, ilustrada e com prefácio de Mario de Andrade — etc.) foram todas baseadas em edições que não merecem confiança e estão inçadas de erros.

Rubens Borba de Moraes

(Texto manuscrito, 5 p., sem data, guardado junto com o exemplar da 1ª edição de Memórias de um sargento de milícias, de Manoel Antônio de Almeida).