A "Galeria dos brasileiros ilustres": Sisson e a elite imperial

A cena é antológica. Os irmãos gêmeos Pedro e Paulo, protagonistas de Esaú e Jacó (Machado de Assis), descem distraídos pelo centro do Rio e estacam numa loja que vendia gravuras. Pedro, monarquista, cobiça a de Luís XVI; Paulo, republicano, vidra na de Robespierre. Fazem uma improvável pechincha às avessas (para subir o preço), pois nenhum queria seu ídolo mais barato que o do outro. Feito o negócio, voltam para casa e atiram as imagens a um prego, acima de suas camas. Entre amor e ódio, unem história universal, política brasileira e rixas cotidianas com uma espontaneidade que não se encontra mais.

Essa presença da política no século XIX, difícil de perceber no XXI, é o pressuposto cultural da Galeria dos brasileiros ilustres, livro em dois volumes organizado pelo francês então radicado no Brasil Sébastien Auguste Sisson (1824-1898). Ao todo, 90 personagens foram elevadas ao status de herói e associadas à trajetória do Brasil independente. Para tanto, cada uma recebeu elogiosa síntese biográfica, quase sempre anônima, e belíssima prancha litográfica, de 51,7 cm de altura por 39,3 cm de largura, assinada por Sisson. Publicadas em fascículos mensais a partir de 1857, as biografias ilustradas foram reunidas em volumes (1861) que, por suas dimensões, lembrariam hoje um coffee-table book. Mas seu uso era menos ornamental. O dono, além de ilustrar-se com os textos, podia encaixilhar as figuras diletas, pregá-las na parede da sala e prosear a seu respeito, explicitando seu vínculo a uma ou outra orientação política. Exatamente como Pedro e Paulo. Só que, no lugar de Luís XVI ou Robespierre, apontaria para Feijó, Vasconcelos, D. Pedro II ou qualquer figurão do tempo.

Reeditada no século XX em tamanho reduzido, a Galeria perdeu esse laço com a vida prática e ideológica, tornando-se uma espécie de Wikipédia de rápida consulta para os pesquisadores, que a tomam como fonte de dados. Embora necessária, essa leitura aos saltos, como se os textos fossem verbetes de enciclopédia, perde uma decisiva dimensão, perceptível apenas numa leitura seriada e contextualizada. O livro tinha uma concepção editorial, apoiada por D. Pedro II, que atendia ao propósito de consagrar a unidade territorial, os progressos técnicos, as conquistas morais e a racionalidade pacífica das disputas políticas no país. Em suma, celebrar a Conciliação (1853-1862) – uma dinâmica do sistema parlamentar, induzida pelo Imperador, que privava aos grupos políticos nomeações partidárias para o primeiro e segundo escalões, a fim de promover a presença de antagonistas no poder sem a dissolução da Câmara dos Deputados. Traz, por isso, liberais e conservadores, revolucionários e militares, eclesiásticos e negociantes, todos irmanados pela nação.

A apreciação em série das biografias já foi feita por historiadores. Extraindo dados da Galeria, dentre outras obras, especialistas concluíram que nossa elite política tinha formação intelectual uniforme, ocupação profissional semelhante e nítido afastamento das atividades econômicas. Sua imagem ideal seria a de um burocrata formado em Direito (Coimbra, Recife ou São Paulo), com experiência na magistratura (promotor, juiz de fora, juiz de direito, desembargador) e infenso aos interesses agrários ou mercantis da escravidão negra. A leitura global e contextualizada do Sisson, bem como a adoção de outros critérios para organizar os dados, confirma e rejeita esse modelo.

Descontados os membros da família real, o universo restante de biografias (86) mostra que 78 personagens, para ser grandes, precisaram ganhar eleições. Fora da política, só o pio eclesiástico ou o bravo militar. Pouco mais de 45% dos 86 bacharelaram-se em leis, 30% tiveram formação militar ou em matemática (lecionada em escolas militares) e cerca de 10% eram eclesiásticos. Um terço percorria a via-crúcis dos juristas (do promotor ao desembargador) ou parte dela (chegando até juiz de fora ou juiz de direito). Portanto, os ilustres da Galeria são, em geral, juristas, magistrados e políticos.

O que não quer dizer que o Império fosse pacifista e docemente verbal, como mostra o padrão dos militares, presentes em quantidade expressiva. Muito se diz da excepcionalidade do duque de Caxias (então ainda marquês), que combateu na Independência, na Cisplatina, na Balaiada, na Rebelião Liberal de 1842, na Farroupilha etc. Dos 16 militares de carreira da Galeria, porém, nada menos que 10 tomaram parte nas repressões de uma ou mais revoltas, a que se somariam as dos Cabanos, da Sabinada e da Cabanagem. Caxias deixa de ser exceção para se tornar a regra. O exército brasileiro, infelizmente, formou seus melhores quadros na guerra contra sua própria população.

E seria a elite imperial também desvinculada da economia? De fato, apenas três biógrafos (ou 3,5%) frisam a dedicação de seus biografados ao comércio ou à agricultura. A abordagem explica-se: em obra de estadistas, por que timbrar em fortunas privadas? Consideradas, porém, as rápidas menções ao nexo com economia agrária ou mercantil (por meio de herança, aquisição ou casamento), o número salta de 3 para 28 (32,5% do total). Se forem adicionados os casos conhecidos de estadistas ligados às elites escravistas (como os do visconde de Uruguai ou do marquês de Paraná), então a soma chega a 38 (45% do total) – cifra tão expressiva quanto a dos próprios bacharéis. O tipo ideal do brasileiro ilustre da Galeria, portanto, era um bacharel em leis, experiente no fórum, competitivo nas urnas e que, após uma palavra na tribuna, contava em casa os lucros obtidos de negros escravizados.

Esse compromisso se revela na abordagem do cativeiro: das 90 biografias, apenas uma elogia medidas antiescravistas do biografado. As outras 89 se calam a respeito. Calam-se, não. Chegam a tecer comentários a seu favor. Uma diz que a personagem amenizava “a sorte de seus escravos, que o amavam como a um pai”. Outra elogia a confecção de um tratado diplomático de extradição com países vizinhos que garantiam a devolução de cativos fugidos (“atos que só por si tornariam a sua missão uma das mais férteis e úteis ao Império”). A de Rego Barros, “estadista” de Pernambuco, menciona sua visita, na antevéspera da Guerra Civil dos EUA (em 1857 e 1858), ao rio Mississipi e à ilha de Cuba, dois pólos econômicos e políticos da escravidão mundial. Do primeiro ressaltou seus “recentes estados que aí florescem”. À segunda chamou “opulenta rainha das Antilhas”.

Mas a Galeria é uma obra complexa. No meio de tanta biografia anônima, lavrada por gente diferente, a dissolução da Constituinte é vista em lente ora positiva, ora negativa; a rebelião de 42 é aqui elogiada, ali denunciada; a superlei regressista de 1841 é por um glorificada, por outro lamentada etc. Por mais que o esforço geral da obra fosse a concórdia de todos pela pátria, os dissensos eram recolocados na releitura dos episódios nacionais. Era como se houvesse um pouco de Pedro e Paulo, de Esaú e Jacó, em cada vida da alta elite imperial – por mais padronizadamente monarquista, bacharel e escravista que ela fosse.

Sugestões de leitura:
MENEZES, Paulo Roberto Jesus de. Imagem e biografia na litografia de Sebastião Sisson. Dissertação. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em História Social. Rio de Janeiro, 2008.
ENDERS, Armelle. “O Plutarco Brasileiro”: A Produção dos Vultos Nacionais no Segundo Reinado. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, V.14, N.25, 2000, p.41-62.
Sobre o autor: 
Tâmis Parron é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo.