Joaquim Norberto de Sousa Silva: poeta, dramaturgo e romancista

Dentre os escritores que adotaram conscientemente a reforma da Niterói (1836), no sentido de assumir o nacionalismo literário como dever patriótico, destaca-se Joaquim Norberto de Sousa Silva (1820-1891), cuja extensa obra incorporou de maneira cabal a divisa da revista: “Tudo pelo Brasil, e para o Brasil”. Além de seguidor das propostas estético-literárias da Niterói, Joaquim Norberto manteve estreita ligação com o grupo liderado por Gonçalves de Magalhães, considerado como guia, gênio, e fundador da literatura brasileira por seus contemporâneos. Não por acaso, no livro de estréia de Norberto, Modulações Poéticas, publicado em 1841 pela Tipografia Francesa, do Rio de Janeiro, a presença de Magalhães está por toda a parte, da dedicatória aos poemas de extração sentimental e filosófica inspirados no mestre.

Outro nome de peso no cenário político e intelectual na primeira metade do século XIX patrocinava igualmente as Modulações Poéticas — Januário da Cunha Barbosa —, fundador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a quem é dedicado o “Bosquejo da História da Poesia Brasileira”, que antecede a parte poética, e onde Norberto faz a primeira tentativa de distinguir seis “épocas” de nosso passado literário.

Assim, se as Modulações inscrevem o nome de Norberto entre os discípulos mais jovens da primeira geração romântica, liderada por Gonçalves de Magalhães, o “Bosquejo” abriu-lhe as portas do Instituto Histórico, em cujos quadros o historiador ingressa aos 21 anos, pelas mãos do cônego Januário Barbosa, admitido inicialmente como sócio correspondente, passando a efetivo, honorário, depois, suplente de secretário, secretário, vice-presidente, até chegar ao cargo de presidente da prestigiosa instituição, de 1887 a 1891.

Ao fazer parte do IHGB, Norberto passa a circular num espaço privilegiado da produção historiográfica no Brasil, vinculado por profunda marca elitista, na qual os membros admitidos eram escolhidos e eleitos por critérios sociais e pessoais. Personalidades da elite brasileira, literatos e intelectuais, comprometidos com o processo da consolidação da Monarquia, reuniam-se aos domingos nas dependências do Paço Imperial, com a presença de D. Pedro II, para propor temas e ler trabalhos que tinham por meta o projeto esboçado pelo Instituto de conferir uma gênese à Nação brasileira. Tal proposta será posta em prática por Joaquim Norberto, do ponto de vista literário, não apenas no “Bosquejo” como também, anos mais tarde, na projetada história da literatura brasileira, publicada em capítulos esparsos na Revista Popular (1859-1862), que ficará incompleta. As inúmeras obras de caráter histórico e biográfico que Norberto escreveu se inscrevem igualmente dentro do projeto das elites políticas e intelectuais, durante o período romântico, de pensar uma história nacional para o Brasil.

Uma vez que, desde a sua fundação, em 1º de dezembro de 1838, o IHGB colocava-se sob a proteção do Imperador, isso significava que a instituição dependia da ajuda financeira do trono e que seus membros deveriam reverenciar os integrantes da família real em ocasiões solenes, fossem festivas ou de luto. Quando da morte de Dom Afonso, primogênito de D. Pedro II e de D. Teresa Cristina, em 11 de junho de 1847, vítima da febre amarela, o Instituto propôs uma homenagem à memória do príncipe falecido, publicada sob o título Oblação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e na qual Joaquim Norberto assina três textos, dois em verso, “O Príncipe Perdido” e “Cântico”, e um em prosa: “Visão”.

Acompanhar a trajetória intelectual de Norberto, a partir dos prefácios, dedicatórias e introduções, assinados por ele ou por amigos e protetores, permite identificar as relações do escritor com o seleto e fechado círculo da intelligentsia brasileira, que teve ampla participação na vida cultural do país no século XIX. O cônego Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro, católico liberalizante com ativa participação no Instituto Histórico, próximo do círculo liderado por Gonçalves de Magalhães, é quem escreve o prefácio de Cantos Épicos, obra dedicada ao Imperador. Não se aventurando a escrever uma epopéia, como fizera Magalhães em 1856, com A Confederação dos Tamoios, Norberto escolhe figuras e eventos, que correspondem ao projeto de nacionalidade implementado pelo IHGB para a historiografia e a literatura brasileiras: “A Cabeça do Mártir”, consagrado a Tiradentes; “Coroa de Fogo”, a Antônio José, vítima da Inquisição; “O Ipiranga”, ao brado da independência, “A Festa do Cruzeiro”, à criação da Ordem do Cruzeiro, “Os Guararapes”, referente à célebre batalha travada pelos pernambucanos com os holandeses, no século XVII. O único canto que não é nacional, “A Visão do Proscrito”, homenageia Napoleão Bonaparte, exilado em Santa Helena.

Não apenas a esfera pública do poder faz-se representar nas dedicatórias das obras de Joaquim Norberto, mas também o âmbito privado, como acontece no Livro de Meus Amores, publicado em 1849, e constituído de poemas que dedica à esposa, D. Maria Teresa de Sousa Silva. Apesar de conferir-lhe atributos de “anjo de amor”, “anjo sagrado”, dentro dos padrões de idealização romântica da figura feminina, Joaquim Norberto classificou as produções de “poesias eróticas”, talvez por conta da segunda parte da obra, “Os Beijos”, que profanariam a imagem pura e casta da mulher. De qualquer forma, quando da republicação da obra, em 1865, pela Garnier, o editor fez questão de enfatizar que, exatamente pelo fato de serem dedicadas à esposa, só esta circunstância bastava para tranqüilizar os leitores quanto à denominação de “eróticas” às composições poéticas de O Livro de Meus Amores.

Já no caso de Flores Entre Espinhos, poemas denominados de “contos poéticos”, Norberto invoca, no prefácio, lord Byron, que teria composto o poema Lara, “em noite que se recolhia de uma mascarada”, para justificar as composições que enfeixam o livro de 1864, “efêmeras produções de uma das variedades do ócio e da preguiça”. Invocar a figura de Byron, cuja vida foi marcada pelo desregramento e licenciosidade, serve também para interpretar certos “contos poéticos”, nos quais a malícia beira à grosseria, como em “A Viuvinha”, que conta a história de uma moça que, na falta do marido, passa a dormir com um manequim de pau, a conselho da mãe.

Se desde as Modulações Poéticas, Joaquim Norberto buscava, conforme declara no prefácio, “um meio fácil” que lhe ‘abrisse “as portas da sociedade” e lhe facilitasse “a marcha na arena da literatura”, nada mais natural que tentasse o teatro, que lhe poderia trazer reconhecimento e sucesso. No entanto, das cinco peças que escreveu — Clitemnestra (1847), O Chapim do Rei (1854), Colombo ou O Descobrimento do América (1854), Beatriz ou Os Franceses no Rio de Janeiro (1860-1861) —, Amador Bueno ou A Fidelidade Paulistana foi a única que subiu aos palcos, em dia 19 de setembro de 1846, no Teatro São Francisco, depois de ter sido escolhida pelo Conservatório Dramático, segundo informa Norberto na introdução do drama, publicado em 1855, pela Tipografia Dois de Dezembro, de Paula Brito.

Não conseguindo, com as composições dramáticas, a tão almejada abertura das portas do teatro, Norberto volta-se para o romance que, nos anos de 1840-1850, dava os primeiros passos, como o escritor vai dizer no prólogo de Romances e Novelas: “É o romance entre nós de tão moderna data que se não deve esperar por ora senão débeis ensaios”. Publicado em 1852, pela Tipografia de Cândido Martins Lopes, de Niterói, o livro reúne quatro composições: “Maria ou Vinte Anos Depois”, novela que saiu na Minerva Brasiliense, entre 1843-1844, com o subtítulo “romance brasiliense”; “Januário Garcia ou As Sete Orelhas”, romance, originalmente publicado com o título de “Mateus Garcia”, em 1844; “As Duas Órfãs”, romance publicado anteriormente na Minerva, em 1841, e “O Testamento Falso”, novela inédita.

MIRANDA, José Américo, MOREIRA, Maria Eunice e SOUSA, Roberto Acízelo de (Orgs.). Joaquim Norberto de Sousa Silva: crítica reunida (1850-1892). Porto alegre: Nova Porva, 2005.
SILVA, Joaquim Norberto de Sousa. Bosquejo da história da poesia brasileira. Edição, apresentação e notas ao texto por José Américo Miranda. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1997.
SILVA, Joaquim Norberto de Sousa. Capítulos de História da Literatura brasileira e outros estudos. Edição e notas de José Américo Miranda e Maria Cecília Boechat. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2001.
SILVA, Joaquim Norberto de Sousa. Romances e Novelas. Organização e apresentação de Sílvia Maria Azevedo. São Paulo: Landy, 2002.
ZIBERMANN, Regina; MOREIRA, Maria Eunice (orgs.). O berço do cânone: textos fundadores da história da literatura brasileira. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1998, p.89-142 e p.182-207.
Sobre o autor: 
Sílvia Maria Azevedo é professora no departamento de Literatura da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquista Filho" (UNESP/Assis)