Floreal: uma iniciativa radical

De pequeno formato (15 x 20 cm aproximadamente), com edições variando de 39 a 56 páginas, a revista Floreal apareceu na primavera de 1907, sob a direção do escritor Lima Barreto, para deixar de ser publicada dois meses depois, totalizando apenas quatro números. Certamente, a prosperidade do mercado dos impressos periódicos animou esta iniciativa. Enquanto livros encontravam um público leitor restrito, revistas e jornais diários inundavam a praça agradando a todos os gostos.

Devido à apresentação simples, à diagramação sóbria e aos longos textos focados na crítica literária, Floreal ficava em desvantagem comercial frente às lindas revistas ilustradas. Tal fato não passou despercebido por seu diretor, crítico ferino da crescente estandardização da produção cultural mais voltada ao entretenimento que à informação. Chegou a escrever na "imprensa burguesa"[1], mas nunca se adaptaria a tal situação. Em Floreal revelou-se impiedoso com a mesma.

Com uma narrativa irônica e mordaz, classificava o gosto dos leitores com desdém e alertava no editorial do primeiro número que não achariam ali o que geralmente procuravam: "faltam-lhe desenhos, photogravuras, retumbantes páginas a côres com chapadas de vermelho – matéria tão ao gosto da intelligencia economica do leitor habitual" [Revista Floreal, n°1, 25/10/1907, p.3.].

Lima Barreto, intelectual investido de verdadeira missão[2], atribuía um sentido emancipatório à leitura e tinha em Floreal não só um espaço de expressão que não encontrara em seu meio, mas um baluarte útil no combate ao que julgava ser a crescente alienação promovida pelos meios de comunicação.

Não seria errôneo supor que Lima Barreto ao escolher o "nome esperançoso"[3] de sua revista percorria o imaginário revolucionário ao evocar des floréals, o oitavo mês do calendário da Revolução Francesa, o esplendor da primavera e símbolo da autonomia dos povos. Por sua vez, seria um signo do próprio desabrochar do autor e de sua primeira grande obra, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, engavetada quatro anos e que achou em Floreal a chance de ser publicada. Com este romance – em que condena a engrenagem comercial da atividade jornalística, seus conflitos de interesse e suas jogadas políticas – chama a atenção do prestigioso crítico José Veríssimo, que o elogiou.

Floreal foi uma tentativa de se fazer uma revista especializada em literatura.[4] Era dividida em duas partes principais. Na primeira trouxe à luz trechos de obras inéditas, poesias, ensaios literários, científicos e filosóficos, debates sobre atualidades e, na segunda, publicava resenhas de livros, de periódicos e de eventos culturais. Esta parte, chamada de Revista da Semana, a partir do segundo número passou a ser intitulada de Revista da Quinzena.

Parece que tinha como inspiração a Revue Mercure de France, da qual sabe-se que Lima Barreto era leitor e cujo número do dia primeiro de setembro de 1907 vem comentado na página 33 da Floreal n° 01, lançada em 25 de outubro do mesmo ano. Da diagramação à ordenação das seções; da orientação literária ao nome da segunda parte, Revue de la Quinzaine[5], tudo evidencia uma intensa troca cultural que tem neste grupo mediadores entre a cena cultural europeia e a brasileira. Percebe-se que alguns temas são evocados ao modelo. Uma rápida olhada no sumário de ambas as revistas mostra as semelhanças. E talvez estas tenham ido mais longe. A leitura do exemplar de setembro, publicado às vésperas da estréia de Floreal, abre novas especulações quanto ao seu nome. A seção Lettres Allemandes apresenta a resenha de uma "excelente revista luxemburguense" chamada Floréal [Revue de Mercure, 01/09/1907, p.179].

De qualquer forma, fica evidente a intenção de se identificar com certa rebeldia estética proposta pela Mercure de France conhecida como a Revue de deux mondes des jeunes[6], reduto da vanguarda literária francesa. Soma-se a isso a inclinação libertária da modesta versão brasileira que é lançada sob os auspícios dos acontecimentos na Rússia, da expansão do movimento operário nas grandes cidades brasileiras como Rio de Janeiro e São Paulo e da ampla difusão no nosso meio literário de autores como Tolstói, Zola, Kropotkin, Bakunin entre outros. Um exemplo, ainda no fascículo de estreia de Floreal, é o ensaio Spencerismo e Anarquia de Ribeiro de Almeida, igualmente citado por José Veríssimo.

Empreendimento coletivo, Floreal reuniu um grupo de colaboradores comprometidos com a crítica social[7], desferindo golpes fatais contra a imprensa, principal tribuna de debates de então, com frases como: "o semi-analphabetismo de uns e a futilidade de outros, actualmente representada pelo jornal diario" [Lima Barreto, Revista Floreal, n°1, 25/10/1907, p.6]. Ou, ainda, destilando ironia contra um dos maiores cotidianos de então, o Gazeta de Notícias: "A Gazeta, por exemplo, deu ao Rio um exemplo edificante de compadecido respeito pelos grandes sentimentos alheios: trouxe para a primeira página, para o Binóculo, a secção de anniversarios e os ternos bilhetes de amor, que, ás vezes, appareciam humilhados entre os 'Aluga-se' e 'Vende-se', na 4 página" [Lima Barreto, Revista Floreal, n°2, 12/11/1907, p.35].

A crítica ao pioneiro da crônica social, Figueiredo Pimentel, autor da coluna Binóculo, espécie de louvação à vida chic carioca, se estende a outro autor, Coelho Neto, mais afeito aos temas mundanos e, desse modo, em desacordo com os ideais engajados presentes em Floreal:

"Não supporto o Sr. Coelho Netto. Acho-o falsíssimo com o seu bucolismo portuguez de zagaes e ovelhinhas brancas, de serranas e espigas louras; não lhe tolero o aprumo conselheiral do periodo, a emphase, a solemnidade, a mania bíblica e os termos sem significação, sem valor algum, para as nossas idéas e sensações actuaes, catados aos diccionários. Os jornaes, porém, rasgam-lhe os mais decididos elogios, e o "Binóculo", com uma antecedência louvável, deu o resultado da conferência nos termos mais calorosos e verídicos. Os jornaes são sempre insuspeitos" [[Juliano] Chaves Barbosa, Revista Floreal, n°3, 12/11/1907, p.41].

Não bastasse toda esta verve expelida sem rodeios, também foram corriqueiros em suas páginas supostos ataques à moral e aos bons costumes, como acontecera com a publicação da continuação do conto de Domingos Ribeiro Filho, Dia de Amor, no primeiro volume: "O romance só tem razão de ser para vingar as nossas tendências naturaes que a cegueira social e religiosa esmaga. Nós nos amamos? possuamo-nos!" [Domingos Ribeiro Filho, Revista Floreal, n°1, 25/10/1907, p.16]. Esta ode ao amor livre teve anteriormente dois capítulos publicados no Correio da Manhã onde fora proibida por ser considerada imoral.[8]

O último número da revista Floreal é o maior, com 56 páginas. Não faltam o humor e a ironia que lhe são peculiares no julgamento de certas personalidades literárias. Um exemplo é o comentário a um panfleto então recém-lançado de Sílvio Romero e Lopes Trovão, Na Estacada, considerado "recheiado de latim e escripto numa maneira um tanto archeologico [sic] para os nossos vinte e tantos annos" [Juliano [Chaves] Barbosa, Revista Floreal, n°4, 31/12/1907, p.40]. Ou o Pequeno Almanaque de Celebridades, com mini-biografias nada lisonjeiras de alguns homens de letras.

Domingos Ribeiro volta com força total ao responder à crítica de Lima Barreto a seu primeiro romance O Cravo Vermelho e desfere impropérios à religião católica, mais uma vez desafiando o conservadorismo:

"Tu sabes que eu detesto a religião, o Christo, deus e todas essas fábulas grotescas e insultuosas que nos atiram pela cara todos os canalhas que não têm outros recursos de espírito. Que fiz eu, então? [...] Os meus heroes se comportam como criaturas que nunca ouviram falar nessas sandices todas. [...] Tu achaste que eu não fui bastante poeta . . . Oh! Barreto!" [Domingos Ribeiro Filho, Revista Floreal, n°4, 31/12/1907, p.47].

É fácil, portanto, entender o motivo do precoce malogro de Floreal, muito embora o fracasso de vendas tenha sido imputado à má distribuição:

"Isso não serve directamente aos jornaes, nem ao vendedor, mas ao distribuidor que, em geral, é nesta terra de liberdade e democracia, o tyranno mais feroz e a pessoa mais digna de consideração [...] Demais, aos pequenos jornaes e às pequenas revistas também em nada serve. A razão é simples, sendo obrigado a occupar pequeno espaço na via publica, o vendedor faz o seguinte : põe á vista os quotodianos [sic] sagrados e as revistas respeitavelmente paleontologicas e debaixo delles as pequeninas publicações, de modo que se um qualquer der de olhos sobre a mercancia não as poderá comprar seja por sympathia, seja por curiosidade, seja por que fôr. O nosso caso é eloquente. Cada um de nós passa junto de um vendedor e não vê a "Floreal"; quando se recolhe a edição, venderam-se trinta e oito exemplares. Que se ha de fazer?" [Echos, Revista Floreal, n°4, 31/12/1907, p.52].

Somam-se à distribuição relapsa, a aparência despretensiosa da "pequenina publicação" – sem atrativos gráficos, sem cor ou papel brilhante – e as notas e polêmicas dissonantes, fatores que seguramente concorreram para o fim da revista. Floreal articulava uma iniciativa muito radical para aquele momento. E, coerente com a obra do grupo que lhe pôs em marcha, é um belo exemplo de "literatura social"[9] no seio do periodismo brasileiro.

Notas:

[1] BARBOSA, Francisco de Assis. A vida de Lima Barreto. Coleção Reconquista do Brasil, v.140. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp: 1988, p.132.

[2] SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 3ª ed. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1989.

[3] VERÍSSIMO, José. "Revista Literária". Jornal do Comércio, 09/12/1907.

[4] SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 1999.

[5] Os exemplares da Revue de Mercure estão disponíveis na interface digital Gallica da Bibliothèque nationale de France (BnF). Para visualizar o volume de setembro de 1907: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k105564p.image.

[6] Site da editora Mercure de France. Disponível em http://www.mercuredefrance.fr/historique.htm.

[7] Antonio Noronha Santos, Domingos Ribeiro Filho, M. Pinto de Souza, M. Ribeiro de Almeida, J. Pereira Barreto, Carlos de Lara, Edmundo Enéas Galvão, Octavio da Rocha, César Gilberto Moraes, Juliano Palhares, Juliano Chaves Barbosa e Gilberto de Moraes.

[8] BOTELHO, Denílson. Floreal e o Jornalismo no Tempo de Lima Barreto. XXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação/Intercom, 2006. Disponível em:

[9] BARBOSA, Op.Cit., p.127.

Sobre o autor: 
Valéria Guimarães é doutora em História Social pela Universidade de São Paulo, pesquisadora de pós-doutorado do Centro de Estudos da Oralidade (COS-PUC/FAPESP) e pesquisadora associada do Centre d´Histoire Culturelle des Sociétés Contemporaines (CHCSC-UVS