HIPÓCRATES (460 A.C. – 370 A.C.): (MEDICINA QUE CONVÉM A CADA UM)

A obra de Hipócrates é vasta e a autoria dos textos polêmica. Entretanto, superando-se a questão da autenticidade autoral, o conjunto de obras deixado pelo fundador da técnica médica – disponibilizados aqui em 10 volumes –, permanece indelével e surpreendentemente atual. Segundo o autor Charles Lichtenthaeler, “a história da medicina poderia ser resumida como retornos sucessivos a Hipócrates”. De fato, se pensarmos no conhecimento (e revalorização) do saber empírico, na capacidade observacional e na sistematização adquirida para narrar o que pode ser constatado a partir das evidências clínicas produzidas ou testemunhadas, esta afirmação ganha ainda mais consistência. O “retorno sucessivo a Hipócrates” não se dá por nostalgia de reviver suas obras, mas porque ele resume o “fazer” da arte médica. É isso que torna esta coleção única e justifica seu enquadramento no seleto grupo dos clássicos.

Embora pouco se saiba da vida do contemporâneo de Sócrates e Demócrito – as informações vieram de Platão e dos eruditos alexandrinos do século iii – há consenso que Hipócrates fundou a era técnica em medicina. Como? Através da invenção da história clínica. A coleção deste autor, conhecida como corpus hipocrático foi ampliada por seus seguidores da escola de Cós – que pautavam suas condutas tendo como base semiológica e fundamento, a observação dos enfermos – contemporâneos e sucessivos compiladores, além de gerações de comentaristas posteriores. Hoje, a maioria dos historiadores da medicina admite que, dentre todos os textos, aqueles que mais sintetizam seu saber e aplicatio, são essas pequenas sentenças, os aforismos, palavra de origem grega cuja etimologia significa “delimitação” ou “distinção”, "separação". Os aforismos médicos tornaram-se populares entre médicos e pupilos justamente pela forma prática e acessível que este tipo de disposição de texto era capaz de fornecer. Pode-se dizer que todo o corpus hipocrático encontra um perfeito abstract precisamente nestas sentenças. Ainda que o conjunto de obras hipocrático seja uma das coleções mais conhecidas da história da medicina, os leitores e pesquisadores precisam compreender que jamais se tratou de um patrimônio exclusivo da medicina. Na verdade, foi a partir do poder  empírico e suas aplicações práticas que gerações de escritores, poetas, cientistas, filósofos e até estadistas foram influenciados por suas deduções, especulações e experiências. Alguns se tornaram mais conhecidos e populares: “as pessoas constitucionalmente obesas estão muito mais sujeitas à morte súbita do que as magras” (segunda seção, 44); “os doentes com tétano morrem em quatro dias; se ultrapassam o quarto dia, curam-se” (quinta seção, 6); ou, ainda, “as feridas em torno das quais caem os pelos são de mau caráter” (sexta seção, 4). E assim, passaram à cultura. O médico medieval hebreu Moisés Ben Maimon, ou Maimônides, afirma ter testemunhado que, desde a infância, muitos tinham o hábito de decorar trechos dos aforismos hipocráticos nas escolas e confirma que “muitos são memorizados mesmo por quem não pratica a medicina”. Esta conquista e esta difusão científica só acontecem quando um livro encontra ressonância e gera efeitos. O nome e a obra de Hipócrates continuam, portanto, estritamente ligados ao desenvolvimento seminal da filosofia como ética e práxis médica. É o caso, por exemplo, dos volumes que abordam a dieta e a nutrição, a importância da anamnese e exame corporal, a ideia da perturbação fisiológica como propulsora da enfermidade, da analogia entre a natureza e o sujeito e dos limites e alcance ético da arte de curar. Particularmente importante é a hodierna correlação entre o habitat e as e maneiras de adoecer e recuperar a saúde. Mais contemporânea ainda é sua recomendação de individualizar a abordagem clinica: é o que convém que deve ser feito.   

Distanciando-nos dos aspectos reverencial e mítico que a personalidade daquele médico grego ainda conserva em nossos dias – e de um possível viés laudatório deles decorrentes – não podemos deixar de insistir na surpreendente e inusitada contemporaneidade da sabedoria hipocrática. Em muitas das seções, a leitura atenta revela uma acurácia descritiva, prognóstica e, por vezes, terapêutica (que as vezes colocava ele mesmo em dúvida), esta última, ainda hoje, reconhecida. É esse pertencimento que perdura sobre uma suposta “desatualização” cronológica de uma obra que vem de tão longe.

Isso também não significa que seus escritos devam readquirir – como já tiveram – aura oracular e dogmática Como concluiu o médico e pesquisador Pedro Laín Entralgo, se a capacidade prognóstica e semiológica da escola de Cós era espantosa, sua terapêutica era pobre e contava com escassos recursos. Por fim, deixemos um trecho que desvela a filosofia médica de sua escola: “A vida é curta, a arte é longa, a ocasião fugidia, a experiência enganosa, o julgamento difícil. O médico deve fazer não apenas o que é conveniente para o doente, mas também com que o próprio doente, os assistentes, e as circunstâncias exteriores concorram para isso.” (Aforismo I). Definitivamente, devemos um retorno a Hipócrates.
 

Sugestões de leitura:

DAREMBERG, Charles. Oeuvres choises d'Hippocrate. Paris: Labe, 1855.

ENTRALGO, Pedro Laín. La Medicina Hipocrática. Madrid: Alianza Editorial, 1987.

HIPÓCRATES. Aforismos. São Paulo: Editora Unifesp, 2010.

HIPPOCRATIC Writings. Enclyclopaedia Britannica INC. Chicago: 1952.

ROSENBAUM, Paulo. Novissima Medicina. São Paulo: Ed. Organon, 2008.

Sobre o autor: 
Médico, escritor, doutor em Ciências, pós-doutor em Medicina Preventiva e pesquisador associado do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP)