Jornada de Estudos "Viagens ao Brasil: a construção do país em textos e imagens"

Jornada de Estudos “Viagens ao Brasil: a construção do país em textos e imagens”

24 de abril de 2017

Local: Sala de Música Villa-Lobos

Organização: Profa. Dra. Ana Beatriz Demarchi Barel (BBM-USP / UEG)

Evento gratuito e aberto ao público

As viagens e seus relatos, tema  prezado  por  diferentes  públicos,  teóricos,   estudiosos  ou  por  apenas  curiosos,  tem  atravessado  os  séculos  e  deixado  como   legado  textos  e  imagens  carregados  de  informação  histórica,  estética,  literária.   Exemplos disso são as obras de  alguns dos  mais  célebres  viajantes  franceses,  Jean-Baptiste  Debret,   Voyage  Pittoresque  et  Historique  au  Brésil  (1839),  Charles   Ribeyrolles,  Brésil  Pittoresque  (1859),  Auguste  de  Saint-Hilaire,  Voyage  aux  sources   du  S,  Francisco  et  dans  la  province  du  Goyaz  (1847).  Ou ainda, a Viagem de von Martius (1829) e a Expedição Langsdorff  (1821-1829),  capitaneadas  por  viajantes   alemães,  desejosos,  ambos,  de  apreender,  pela  escrita  e  pela  imagem,  um  imenso   território  que  lhes  escapa  não  apenas  por  suas  dimensões  gigantescas  como   também  por  sua  diversidade  étnica  e  geográfica.  Os diários desses exploradores   também se constituem como material importante no que diz respeito à vida   pessoal desses atores culturais,  revelando,  muitas  vezes,  as  impressões  que  a   descoberta  do  novo  território  causava  sobre  eles.  

Além dos relatos de viagem e dos diários, os documentos de Estado  –  tanto  o  que   promove  a  viagem  quanto  o  que  recebe  o  viajante –  pode  fornecer  dados  sobre  o   papel  que  buscavam  desempenhar,  no  contexto  histórico-político  em  que  são   produzidos.  Nesse sentido, eles são os guardiões de  intenções  políticas  e   diplomáticas  desses  Estados  e  de  seus  representantes,  e  fundamentais  para  a  compreensão  de  projetos  civilizatórios  e  de  natureza  colonialista,  como  prova  a   correspondência  de  Ferdinand  Denis,  por  exemplo.   

São também imprescindíveis para a definição dessa identidade nacional os textos   de ficção  que,  por  meio  de  deslocamentos  –  reais  ou  imaginários  –  contam  o  Brasil,   definindo,  assim,  seu  ‘retrato’  natural,  social  e  humano.  Desde os primeiros Românticos até os Pós-Modernos, encontramos exemplos  nesse  sentido,  como  A   Guerra  dos  Mascates  (1873),  Inocência(1872),  para  o  século  XIX  e  O  Tempo  e  o   Vento  (1949-1961),  Macunaíma  (1928),  Grande  Sertão:  Veredas  (1956),  Dois  Irmãos   (2000),  dentre  outros,  para  os  séculos  XX  e  XXI.  No plano teórico,  os  estudos  sobre   a  viagem  se  inserem,  o  mais  das  vezes,  nos  estudos  sobre  espaço  e  seu  significado   na  Literatura.  Se uma das  primeiras  obras  a  se  dedicar  ao  espaço  e  seu  valor  no   texto  poético  é  a  de  Gaston  Bachelard,  de  1957,  La  poétique  de  l’espace,  entre  os   pesquisadores  brasileiros,  Antonio  Dimas,  em  seu  Espaço  e  Romance,  de  1985,  já   traçava  as  linhas  gerais  desse  enfoque,  sem,  no  entanto,  se  debruçar  sobre  as   viagens  e  os  deslocamentos,  particularmente  e,  sim,  sobre  a  contextualização   espacial  das  tramas.  Flora Süssekind  em  O  Brasil  Não  é  Longe  Daqui:  O  Narrador,  A   Viagem  (1990),  também  pensa  a  questão  da  identidade  nacional  e  as  pontes  com  a   viagem,  focando  sua  análise  na  figura  do  narrador.  Em 2012,  na  esteira  dos  estudos   sobre  os  relatos  de  viajantes,  o  historiador  Jean-­‐Marcel  Carvalho  França,  em  A   Construção  do  Brasil  na  Literatura  de  Viagem  do  século  XVI,  XVII  e  XVIII.  Antologia   de Textos  (1591-1808),  se  aproxima  de  nossos  interesses,  elencando  textos  de   viajantes  e  lendo-os  a  partir  de  um  instrumental  histórico.   

Um  dos  teóricos  que  primeiro  se  dedicou  ao  estudo  das  relações  entre  forma   literária  e  espaço  geográfico  de  forma  mais  complete  é  Franco  Moretti,  com  seu   Atlas  du  roman  européen   (1800-­‐1900),  de  2000.  Além  da  leitura  interdisiplinar   minuciosa  entre  Geografia  e  Literatura,  o  crítico  italiano  promove  um  excelente   estudo  sobre  o  valor  das  viagens  em  algumas  das  mais  emblemáticas  obras  da   Literatura  universal  e  europeia,  no  arco  temporal  de  um  século.  Uma  das  riquezas  desse  material  é  a  de  ser  portador  de  elementos  identitários   fundamentais  como  religiosidade,  raça  e  nacionalidade,  acionados  intensamente   pelos  deslocamentos  e  pelos  encontros  num  território  comum.  Em  todas  essas   obras,  a  viagem  se  define  como  elemento  crucial  para  o  encontro  de  culturas,  de   indivíduos  e  de  mentalidades,  e  ajudam  a  elaborar,  através  do  discurso  e  da   imagem,  uma  ideia  de  Brasil.   

Nossa  jornada  de  estudos  se  dedica  a  aprofundar  o  tema  da  viagem,  em  seus   diferentes  aspectos,  enquanto  elemento  que  permite  a  construção  do  Brasil  no   campo  da  História  e  da  Literatura. 

 

PROGRAMAÇÂO

 

Mesa  1:  9h30  -11h00

 

   - Maria  Aparecida  Borrego   (MP-USP) - Os  Homens  e  os  Caminhos  do  Sertão  nas  Notícias  práticas  do  Século   XVIII   

   - Marcos  Horácio  Gomes  Dias  (PUC-SP) - O  Caminho  de  Minas  Gerais  a  Goiás:  Viajantes,  Povoadores,  Modelos  e   Imagens   

 

Mesa  2:  11h00  –  12h30  

 

   - Ana  Beatriz  Demarchi  Barel  (BBM-USP/UEG) - Ferdinand  Denis  e  o  Brasil:  A  Representação  do  Brasil  e  um  Projeto  de  Identidade  Nacional  na  Literatura  Brasileira   

   - Iris  Kantor  (FFLCH-USP) - Mensurar  o  Brasil:  Cartografia,   Estatística  e  Pensamento  Geográfico  Entre  1808-1850   

 

INTERVALO

 

Mesa  3: 14h00  –  15h30

    

   - Carlos  Alberto  Dória  (UNICAMP) - O  Delírio  de  Brás  Cubas  e  A  Origem  dos  Séculos:  Notas  de  Aproximação  ao  Maravilhoso  nos  Cronistas  e  Viajantes     

   - Joceli  Domingas  de  Oliveira  (IA-UNESP) - As  Representações  de  São  Jorge  nas  Cidades  de  São  Paulo,  Rio  de  Janeiro   e  Maragogipe:  Estudos  de  Caso   

 

Mesa  4:  15h30  –  17h00 

 

   - Myriam  Salomão  (UFES) - Transferências  Estéticas  no  Repertório  Ornamental  da  Igreja  Matriz  de   Santa  Leopoldina  –  ES  e  da  Capela  da  Academia  de  Juiz  de  Fora  –  MG   

   - Rafael  Schunk  (IA-UNESP) - Frei  Agostinho  de  Jesus  e  a  Formação  da  Arte  Colonial  América   Portuguesa       

 

RESUMOS:

 

Ferdinand Denis e o Brasil: A Representação do Brasil e um Projeto de Identidade Nacional na Literatura Brasileira

Ana Beatriz Demarchi Barel (BBM-USP/UEG)

Entre 1816 e 1819, como atestam as cartas à família e as páginas do diário, Ferdinand Denis viveu no Brasil, entre Bahia e Rio de Janeiro e percorreu parte do território brasileiro. Inserido num intenso movimento internacional que moveu viajantes de diferentes países às Américas, o que impulsiona o viajante francês ao Brasil é, inicialmente, a realização de um projeto pessoal idealizado pelo pai, funcionário da diplomacia francesa. Se os documentos sobre as relações de Denis parecem ter-se perdido das páginas da microhistória, os da História oficial corroboram esta hipótese. Se o projeto pessoal não se cumpriu, ele possibilitou a escritura de nossa primeira História Literária independente da de Portugal e de textos importantes para a definição de uma identidade nacional literária para o Brasil. Se esta representação nacional de nossa identidade é marcada por uma leitura europeia, ela também revela uma compreensão mais clara do processo colonial.

 

O Delírio de Brás Cubas e A Origem dos Séculos: Notas de Aproximação ao Maravilhoso nos Cronistas e Viajantes

Carlos Alberto Dória (UNICAMP)

O trabalho visa pôr em relevo uma espécie de bestiário que se pode desentranhar dos vários relatos de cronistas e viajantes, criando a noção de um país fantástico, capaz de produzir maravilhamento, e que pode ser visto no presente conforme o conceito de real-maravilhoso, de Alejo Carpentier, pôra quem "nossa natureza é indômita, como nossa história, que é a história do real maravilhoso e do insólito na América" - fornecendo material de fabulação literária.

 

Mensurar o Brasil: Cartografia, Estatística e Pensamento Geográfico Entre 1808-1850

Iris Kantor (FFLCH-USP)

O objetivo dessa comunicação é analisar as diferentes matrizes de conhecimento geográfico disponíveis sobre o território Brasileiro no processo de preparação e definição dos itinerários das viagens realizadas por Auguste Saint-Hilaire e Von Martius. Os relatos nos oferecem um quadro instrutivo a partir do qual podemos identificar a trama de referências histórico-geográficas adquiridas tanto nas bibliotecas, academias, ateliês e gabinetes diplomáticos europeus, como também aquelas compulsadas localmente. De fato, para empreender as expedições, os naturalistas mobilizaram um extraordinário conjunto de obras, muitas delas manuscritas e de acesso restrito ou confidencial. Considerando o peso das concepções geográficas na elaboração das teorias sobre a botânica americana, nossa apresentação visa compreender os modos de utilização das fontes cartográficas, demográficas e estatísticas na composição dos respectivos relatos de viagem.

 

As Representações de São Jorge nas Cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Maragogipe: Estudos de Caso

Joceli Domingas de Oliveira (IA-UNESP)

Esta pesquisa apresenta o percurso da devoção de São Jorge, a partir de Portugal nos primeiros anos do Brasil Colonial, sendo protetor da Família Real Portuguesa, do exército, das elites, irmandades lusitanas e engenhos. Seu culto recebeu influências das irmandades de Ordem Terceira e das religiões afrobrasileiras, como Candomblé e Umbanda na região Nordeste e Sudeste. Com a imigração no século XIX, a devoção ao santo recebe novas influências iconográficas, tanto ocidentais no caso da estampa da gráfica Stamparia Martinelli, como os ícones ortodoxos trazidos pelos imigrantes do Leste Europeu e Oriente Médio. A contribuição cultural deste estudo se encontra na análise das manifestações religiosas disseminadas nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Maragogipe, em efemérides como Carnaval, festas religiosas diversas, representações estéticas populares e time de futebol.

 

O Caminho de Minas Gerais a Goiás: Viajantes, Povoadores, Modelos e Imagens

Marcos Horácio Gomes Dias (PUC-SP)

A proposta dessa comunicação é fazer uma pequena análise sobre como os povoadores de Minas Gerais levaram modelos e imagens para a região de Goiás no século XVIII e como esses valores perduraram no século XIX, momento da consolidação do neoclássico no campo da arte. Procura-se desenvolver essa análise por meio de uma contextualização da época, lembrando os primeiros colonizadores paulistas e o discurso que está dentro da dinâmica artística e social daquele momento. Essa arte está relacionada ao Barroco e contextualizada numa cultura artística cuja finalidade é atender às necessidades da fé católica. A presença desses elementos nos distantes territórios da colônia revela como os gostos artísticos se espalham pelos caminhos e mostra o interior do Brasil com uma rede de comércio intensa com os polos de dispersão e concentração de população. As formas que aí se estabelecem afirmam os valores que precisam ser cristalizados num território distante e que necessita de ordem e organização.

 

Os Homens e os Caminhos do Sertão nas Notícías práticas do Século XVIII

Maria Aparecida Borrego (MP-USP)

Em 1730 desembarcaram, no Rio de Janeiro, os padres matemáticos Diogo Soares e Domingos Capassi, com a incumbência de produzirem o Novo Atlas da América Portuguesa e uma descrição minuciosa da geografia, vias de comunicações e populações da colônia a fim de precisarem os limites entre as coroas ibéricas. Para auxiliar os emissários do rei D. João V chegaram às suas mãos notícias de monçoeiros que relatavam os caminhos por eles percorridos nas expedições fluviais regulares entre Araritaguaba e Cuiabá e os desafios enfrentados pelas tripulações e passageiros no sertão. Nessa comunicação, pretende-se analisar os registros de tais homens práticos sobre o trânsito de homens e artefatos nesse espaço colonial, que se tornaria cada vez mais decisivo para o alargamento das fronteiras pretendido pelo soberano e para as feições que o país assumiria quando independente.

 

Transferências Estéticas no Repertório Ornamental da Igreia Matriz de Santa Leopoldina - ES e da Capela da Academia de Juiz de Fora - MG

Myriam Salomão (UFES)

O presente estudo destaca e analisa os padrões ornamentais das pinturas parietais realizadas em dois exemplares de edificações religiosas de estilo eclético construídas entre o final do século XIX e início do século XX na região sudeste do Brasil. Primeiro, o conjunto das pinturas recentemente descoberto durante prospecções para o restauro artístico e arquitetônico no interior da igreja matriz em Santa Leopoldina, estado do Espírito Santo, e segundo, as pinturas realizadas na chamada capela da Academia localizada na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais. Possuem em comum o fato de terem sido pintadas internamente por dois religiosos da Sociedade do Verbo Divino, congregação religiosa católica de origem holandesa. Apesar da distância geográfica entre as duas cidades, as semelhanças estilísticas e assinatura em uma das pinturas, indicam que dois padres verbitas foram os responsáveis pelo trabalho nas duas construções: Adalberto Karl Inhetvin (1897 - 1927) e Germano Franz Speckemeier (1874 – 1959). Também discutiremos a origem dos motivos ornamentais utilizados que remetem a "Gramática do Ornamento" de Owen Jones, publicado em 1856, publicação esta que realizou ampla pesquisa temática, ressaltando que o seu propósito era ampliar a compreensão dos princípios fundamentais da ornamentação.

 

Frei Agostinho de Jesus e a Formação da Arte Colonial América

Portuguesa

Rafael Schunk (IA-UNESP)

Na história da colonização brasileira, a produção de imagens sagradas representou um importante papel didático no processo de ensino e conversão religiosa do território conquistado, sobretudo incentivado nas oficinas conventuais jesuíticas, beneditinas, franciscanas e carmelitas. No planalto de Piratininga, as pioneiras relações sociais estabelecidas por meio de laços matrimoniais entre tupis e portugueses foram de encontro à secular sociedade paraguaia formada por espanhóis e guaranis, gerando uma mescla de culturas que resultaram na ideia de sertão: local onde a miscigenação e liberdade fugiram de tratados ibéricos e controles metropolitanos. Pelos velhos caminhos indígenas Peabirus, os bandeirantes paulistas avançaram no interior do continente em busca de riquezas, levando consigo suas experiências e retornando com a prata de Potosí e mão de obra missioneira. No meio deste caminho estava Santana de Parnaíba e a arte do primeiro grande artista brasileiro: Frei Agostinho de Jesus. Residindo no Mosteiro dos Beneditinos desta localidade a partir de 1643 transforma o panorama cultural do Brasil, um significativo momento das artes plásticas nacionais. Em Parnaíba, o mestre encontrou uma sociedade original, miscigenada, criando obras-primas, testemunhos da arte sacra paulista, berço da identidade nacional. A série de imagens em terracota desenvolvidas nesta região integra umas das primeiras tradições brasileiras de escultura religiosa somando contribuições de artistas como Frei Agostinho da Piedade, Mestre de Angra dos Reis e entalhadores missioneiros. A partir desse evento forma-se um conjunto de santeiros que seguirão estéticas eruditas e populares formando a Escola Cultural do VaIe do Rio Tietê e Paraíba do SuI. Toda essa agitação social irá acompanhar os pioneiros no processo de expansão do país rumo a Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás. O retorno desse fluxo humano à Parnaíba produz uma relíquia: a Capela de Nossa Senhora da Conceição do Voturuna, primeiro altar nacional e que reuniu referências platerescas, maneiristas, beneditinas e ornamentos tropicais. Por meio da síntese de influências americanas, europeias e orientais nasce à cultura brasileira.

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