Homenagem da Família Mindlin ao Prof. Antonio Candido

A perda de Antonio Candido

Sempre é difícil, para nós quatro filhos, participar dos trabalhos da BBM na ausência de nosso pai. Toda sua vida está aqui, nos livros, na USP – mas não está mais conosco. Agora, passamos por uma segunda orfandade de pai, com o desaparecimento de Antonio Candido. Os dois construíram, ao longo de décadas, uma forte amizade. Laço que ficou mais intenso, creio, quando enviuvaram, quase na mesma época, 2005 e 2006.

Nosso pai tinha uma imensa admiração por Antonio Candido. O amigo representava o que ele gostaria de ter sido, se tivesse mais vidas: o escritor e crítico literário entre os melhores que lera, o profundo conhecedor do Brasil, o estudioso, o professor renomado, pesquisando com rigor, o juiz da qualidade literária das obras que lhe chegassem às mãos. Nosso pai parecia um menino travesso no orgulho de ser amigo de Antonio Candido. Quando ambos, em 2006, participaram da mesma mesa em comemoração ao cinquentenário de Corpo de baile e de Grande sertão veredas, o auditório estava tão cheio, que nosso pai quase não conseguia entrar. Com Diana e eu grudadas nele, foi abrindo caminho e explicando com gentileza e felicidade: “Tenho que falar junto com meu irmão mais novo!”

É curioso que, com trajetórias bem diferentes, tivessem tanto em comum. Nosso pai, desde menino leitor voraz e com o raro dom de amar e saber o que é um livro raro, empresário por acaso, avesso à política pela qual teve apenas uma curta passagem – interrompida com o assassinato de Vladimir Herzog –, passagem que marcou sua imagem como opositor implacável da ditadura militar, não tentou ser nem foi professor universitário. Antonio Candido, sociólogo, socialista, filiado e fundador do Partido dos Trabalhadores, participando de movimentos sociais, com conferências e presença em atos públicos e manifestações populares, foi nosso paradigma de intervenção social.

Uniam-se, os dois, na sede de justiça social e de igualdade, no desejo de transformar e corrigir o mundo, no amor à criação artística em todas as suas vertentes, nas viagens pelos livros, autores, no sentido da existência que não se apoia nas finanças, no lucro, no capitalismo. Nosso pai admirava o iluminismo, o século XVIII dos direitos humanos, a revolução de 1917 (pelo menos enquanto fui adolescente e não sabíamos tanto sobre o stalinismo), e viajou aos três países comunistas enquanto isso ainda era excepcional e proibido. Não sei o quanto Antonio Candido e ele falavam sobre uma sociedade ideal utópica, mas convergiam no essencial, tinham prazer em falar de literatura, história, personagens, brincavam em conversas infindáveis. Os dois acolhiam todos que os procuravam, ouviam e estimulavam os moços, interessados em pessoas comuns, tratando todos como iguais.

Muitos dos belíssimos e numerosos depoimentos e homenagens publicados apenas neste mês, desde o falecimento de Antonio Candido, afirmam que com ele desaparece um mundo e uma época. É verdade que, sobrevivendo sete anos a nosso pai, ele viu um mundo e um Brasil bem piores. No entanto, penso que as gerações seguintes não podem pensar no fim do que ele representa, mas devem tê-lo como um farol, uma tocha a não se apagar jamais, passando dos mais velhos aos mais moços. Ele foi um mentor e encorajador desta biblioteca e desta doação, e esta jovem instituição da USP, com a valiosa colaboração de vocês todos e dos que aqui trabalham, há de se perguntar sempre, em decisões cruciais, como fazemos nós desde que o conhecemos: “O que diria Antonio Candido?”