Klaxon (1922-1923)

Lançada em São Paulo no mesmo ano que se realiza a Semana de Arte Moderna, Klaxon (1922-1923) é a primeira revista modernista do Brasil. Em “O Alegre combate de Klaxon”, excelente introdução á edição fac-similar da revista, Mário da Silva Brito afirma que “em Klaxon aparece, sob forma de artigos, poemas, comentários, críticas de arte, piadas e farpas zombeteiras, o estado de espírito do grupo de jovens que elaborou a ideologia modernista”. Do comitê de redação, participam ativamente Menotti del Picchia e Guilherme de Almeida. Porém , ainda que a revista não o registre de forma explícita, sabe-se hoje, por intermédio de Aracy Amaral, que Mário de Andrade foi “diretor e líder da revista“. Mesmo assim, de um número para outro prevalece o espírito de grupo anunciado no texto introdutório : “KLAXON tem uma alma coletiva”. Essa apresentação tem todas as características de um manifesto e, embora venha assinada pela Redação, ela é, segundo Mário da Silva Brito, de autoria de Mario de Andrade.

Das diversas revistas modernistas que proliferam no Brasil dos anos 1920, Klaxon sem dúvida é plasticamente a mais audaciosa , a mais renovadora e a mais criativa, não só por sua belíssima diagramação , que lembra técnicas da Bauhaus, como pelas modernas ilustrações de Brecheret e Di Cavalcanti. Seu caráter cosmopolita é explícito: “KLAXON sabe que a humanidade existe. Por isso é internacionalista”[1]. A revista traz artigos e poemas de autores franceses, italianos e espanhóis , todos em suas línguas originais; é, além disso, poemas de Manuel Bandeira e Serge Milliet (que assinava assim na época) compostos em francês. Estes últimos são ainda influenciados por uma certa estética simbolista. Mas na revista predomina o tom futurista (“KLAXON não é futurista. KLAXON é klaxista”) e um desejo de abolir o passado para viver o presente, o moderno. Essa ânsia de atualidade leva os redatores a afirmarem que Klaxon “quer representar a época de 1920”, numa espécie de glorificação da sincronia.

A negação da realidade, em favor da arte como expressão cerebral e construtiva, aparece na afirmação: “KLAXON sabe que a natureza existe. Mas sabe que o moto lírico, produtor da obra de arte, é uma lente transformadora e mesmo deformadora da natureza”. São aqui retomados os postulados do criacionismo na relação arte/natureza, que Mário de Andrade absorvera através dos textos de Huidobro publicados em L’Esprit Nouveau.

Irreverente e sarcástica, Klaxon apresenta um perfil de típica agressividade vanguardista, conforme relembra Menotti del Picchia: “é uma buzina literária, fonfonando, nas avenidas ruidosas da Arte Nova, o advento da falange galharda dos vanguardistas”.

[1] Em Ramón Gómez de la Serna supôs acertadamente que Mário de Andrade era o fundador de Klaxon, e seu conhecimento do “desvairismo” leva a acreditar que teve nas mãos Paulicéia Desvairada, que começa com o célebre verso: “Está fundado o Desvairismo”.

Sugestões de leitura:

Fabris, Annatersa. O futurismo paulista. São Paulo: Perspectiva, 1994.

Amaral, Aracy . A propósito de Klaxon. Jornal O Estado de S.Paulo - Suplemento Literário, São Paulo, 03 fev. 1968.

Brito, Mario da Silva. O alegre combate de Klaxon.Introdução fac-símile dos 9 números da Revista Klaxon – Mensário de Arte Moderna. São Paulo: Martins; Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, 1976.

Sobre o autor: 
Jorge Schwartz é Professor Titular da Universidade de São Paulo e Diretor do Museu Lasar Segall.