Expedição Langsdorff: a [re]construção do conhecimento através dos relatos de viagens

Georg Heinrich von Langsdorff foi certamente um homem à frente de seu tempo, cuja importância continua a repercutir mesmo quase dois séculos após sua morte. O assim conhecido ‘barão de Langsdorff’ (1774-1852), naturalizado russo, nasceu em Wöllstein e morreu em Freiburg, ambas cidades alemãs. Ele completou seus estudos na Universidade de Götiingen, onde se dedicou, em especial, à medicina, doutorando-se aos 23 anos em obstetrícia. Já nessa época, seu interesse pela etnografia era evidente. Ao longo de sua vida assumiu alguns cargos de prestígio. Foi, por exemplo, membro da Academia Imperial de Ciências de S. Petersburgo e Conselheiro de Estado da Rússia, além de diplomata e cônsul-geral da Rússia no Brasil. Langsdorff foi o mentor da grandiosa expedição à Terra “Brazilis” conduzindo, entre os anos 1822 e 1828, um grupo de pesquisadores experientes e formidáveis artistas por uma viagem de 17 mil quilômetros no interior do Brasil. Registrou em diários os relatos dessa ambiciosa e malograda expedição nos quais nos deparamos com textos, ilustrações, mapas e preciosos estudos sobre a fauna, a flora, a linguística de algumas tribos indígenas do Brasil Central e também os hábitos interioranos do país.

Após concluir seus estudos, em 1797, Langsdorff partiu para Portugal e rapidamente formou uma respeitável clientela. A prática da medicina lhe proporcionava o tempo livre necessário para se dedicar às pesquisas na área das ciências naturais. Aprendeu a se comunicar com perfeição em língua portuguesa, habilidade que facilitou suas pesquisas sobre o Brasil e a comunicação com os nativos deste país. Em 1803, Langsdorff esteve no Brasil pela primeira vez, na ilha de Santa Catarina, com um grupo de cientistas comandados por Ivan Fiodorovitch Kruzensternos com os quais, em navios russos, faziam viagens de circum-navegação regulares pelo globo.

De volta à Europa, Langsdorff publicou dois volumes chamados Bemerkungen auf einer Reise um die Welt in den Jahren 1803 bis 1807 (Notas sobre uma viagem ao redor do mundo nos anos 1803-1807), títulos ilustrados pelo próprio autor que tratam da fauna, flora e da etnografia da Califórnia, Havaí, Alaska, Nukuhiwa, ilhas do Pacífico, península do Kamtchatka e Japão. Em 1813 se mudou para o Brasil como Ministro Plenipotenciário Fedor Pahlen e assumiu o Consulado Geral da Rússia no Brasil. Em 1816, o barão de Langsdorff compra, no atual estado do Rio de Janeiro, a Fazenda da Mandioca, estadia obrigatória de diversos cientistas e naturalistas europeus que estiveram no Brasil nas primeiras décadas do século XIX e aí organizaram diversas expedições, entre os quais destacamos Spix e Martius, John Luccock, Emmanuel Pohl, Maximilian zu Wied-Neuwied, Saint-Hilaire e Friedrich Sellow.

A Expedição Langsdorff apresentou um caráter diferenciado em relação a outras expedições que percorreram o Brasil, pois além de estudar a flora e a fauna do país, os expedicionários dedicaram-se a pesquisar a etnografia e os idiomas das tribos brasileiras. A viagem foi custeada pelo czar Alexandre I da Rússia, país que buscava se igualar em importância às outras potências europeias no campo dos conhecimentos científicos. O barão reuniu, ao todo, 39 pessoas para a expedição e entre elas integraram o grupo artistas renomados, como os pintores Johann Moritz Rugendas, Hércules Florence e Aimé-Adrien Taunay, cujas reproduções da flora, da fauna e dos nativos brasileiros impressionaram a todos pelo rigor descritivo e pela beleza representada. O astrônomo Nestor Rubtsoz, o botânico Ludwig Ridel, e o naturalista Wilhelm Freyreiss também compunham esta equipe e muitas das espécies de plantas coletadas por Riedel foram expostas pela primeira vez na Flora Brasiliensis do botânico Carl Friedrich Philipp von Martius. A expedição teve como ponto de partida a província de Minas Gerais e depois rumou para o Brasil Central, seguindo por rio de São Paulo a Cuiabá, tomando, a partir daí, a direção norte, explorando a Amazônia e as cabeceiras e leito do rio Orenoco. Em 1825, a equipe saiu do Rio de Janeiro para Porto Feliz, na província de São Paulo em direção a Cuiabá. Todo o material coletado pela expedição foi enviado, em sua maioria, para a Rússia, onde permaneceu arquivado por quase um século. Parte desse material foi perdido numa enchente em Stalingrado e outra parte, composta pelos desenhos e aquarelas produzidas por Rugendas, foi enviado à França.

É comum nos depararmos com a visão de que a expedição foi malograda em virtude das baixas humanas (como o afogamento do pintor Adrien Taunay e a ‘febre tropical’ que teria afetado muitos membros do grupo), e a perda completa da memória do barão de Langsdorff que, ao retornar à Europa, nem ao menos se lembrava que tinha estado no Brasil. Contudo, o legado deixado pelos pintores foi altamente valorizado na Europa e as amostras vegetais, os animais empalhados e as pinturas realizadas enviadas para São Petersburgo. Este material ficou esquecido por quase um século e só foi redescoberto em 1930. No entanto, com a Guerra Fria, as amostras permaneceram distantes dos olhares científicos por décadas e apenas em 1980 este material foi exposto ao grande público.

Os trabalhos de Langsdorff são fundamentais para a história natural e possuem um valor singular para o Brasil, sobretudo do ponto de vista da etnografia. Através de seus relatos nos aproximamos dos costumes e da linguística de certas tribos, como os apiacás, mundurucus, guanás; outras, já extintas no Brasil Central, ainda não foram estudadas. Em seus diários, Langsdorff afirma: "Cada observador tem seu próprio ponto de vista pelo qual vê e julga os novos objetos; tem sua própria esfera, na qual se esforça por incluir tudo que está em mais estreito contato com seus conhecimentos e interesses... Tratei de eleger o que me pareceu representar o interesse geral — usos e costumes de diferentes povos, seu modo de vida, os produtos do país e a história geral de nossa viagem... O rigoroso amor à verdade representa não uma vantagem, mas o dever de cada cronista da viagem. Com efeito, é escusado discorrer sobre aventuras numa viagem tão longa como a nossa, ou compor contos sobre a mesma: ela fornece uma quantidade tão grande de coisas admiráveis e interessantes que nos basta esforçarmos em tudo observar e nada deixar passar".

É importante evidenciar que a expedição Langsdorff é conhecida como uma das mais importantes expedições científicas do século XIX e seus relatos contribuem, ainda hoje, para o melhor conhecimento da antropologia, da iconografia e da historiografia da história do Brasil.

Sugestões de leitura:
SILVA, Danuzio Gil Bernardino da (org.). Os diários de Langsdorff. Campinas: Associação Internacional de Estudos Langsdorff; Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 1997.
MANIZER, Guenrikh Guenrikhovitch. A Expedição do Acadêmico G.I. Langsdorff ao Brasil (1821- 1828). In: Brasiliana eletrônica. São Paulo: Companhia editora nacional, 1967.

Luciana de Fátima Candido é graduada em Letras (português/alemão) pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP)

Sobre o autor: 
Luciana de Fátima Candido é graduada em Letras (português/alemão) pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP)