Hermann Burmeister: um viajante apaixonado pela ‘História Natural’ do Brasil

Burmeister, [Karl] Hermann [Konrad] (1807-1892) nasceu na cidade de Stralsund, Alemanha, e morreu em Buenos Aires, Argentina. Considerado um respeitável naturalista do século XIX, recebeu por mérito científico algumas condecorações importantes. Além de paleontólogo foi geólogo e zoólogo, tendo também ocupado cargos de prestígio, tanto no âmbito acadêmico quanto no administrativo. Sua tese de doutorado sobre as diferentes fases evolutivas dos insetos já demonstrava o valoroso pesquisador que se formava, pois esse tema ainda não havia sido desenvolvido pelo ramo da zoologia. Algumas publicações relevantes neste sentido são Handbuch der Entomologie (1833-1835) em 5 volumes, o Grundriβ der Naturgeschichte (1833) e a Geschichte der Schöpfung (1843).

Em 1827, na Universidade de Halle, Burmeister estudou medicina e filosofia; em fins de 1829 defendeu seu doutoramento com o tema da insetologia. Ele retorna a Stralsund e logo em seguida, em 1830, ingressa no exército berlinense, onde exerce a função de médico. Foi neste período que cresceu o seu grande interesse pela pesquisa e igualmente pelas ciências naturais. No ano de 1833 ele assume como livre docente de História Natural na Universidade de Berlim e, quatro anos depois, agora na Universidade de Halle, Burmeister se torna um professor de renome no departamento de zoologia. Em 1848, filia-se ao partido alemão de extrema esquerda e deste participa ativamente. Entretanto, no ano de 1850, ele se dissocia deste partido por frustrar-se com o que vê na política alemã. Depois do desapontamento político, Burmeister procura novos horizontes profissionais e percebe que a realização de um sonho juvenil, os estudos científicos dos trópicos, poderia se realizar. Este sonho se concretiza graças à intervenção de Alexander von Humboldt junto ao ministro da cultura de Landenberg, que concedeu a Hermann Burmeister subsídios do estado para viagem científica e também da Universidade de Halle que lhe conferiu licença de um ano para visitar o Brasil.

Burmeister partiu para o Brasil em 1850 e a sua viagem cientifica levou-o a conhecer Nova Friburgo, Cachoeira, Capivari, Vila da Pomba, Lagoa Santa, Mariana e Ouro Preto. Devido a um acidente em Lagoa Santa, o pesquisador precisou fazer uma parada obrigatória de cinco meses, e ficou hospedado na casa de outro naturalista. No inicio de 1852, ele volta para a Alemanha e, entusiasmado pelas belezas dos trópicos e pelos resultados obtidos, escreve o seu primeiro livro sobre o Brasil intitulado Reise nach Brasilien durch die Provinzen von Rio de Janeiro und Minas geraës. Mit besonderer Rücksicht auf die Naturgeschichte der Gold und Diamantestricte. Em 1856, Burmeister obtém outra licença, agora de quatro anos, sobre nova intercessão de Humboldt. Neste mesmo ano ele viaja por alguns países sul-americanos e na Argentina se depara com um campo de pesquisa tão vasto que aí decide fixar moradia permanente. Em 1862, Burmeister assume a direção do Museu Nacional de Buenos Aires. Na Argentina, ocupou-se de colecionar materiais zoológicos e mineralógicos e a estudar as condições climáticas do mesmo e das regiões adjacentes.

Suas pesquisas e viagens pelo Brasil, Uruguai e Argentina foram base para sua obra gigantesca, um total de 292 títulos, cuja temática abordada foi a insetologia, a zoologia e a história natural geral. Muitos desses livros foram traduzidos para o holandês, francês, português e espanhol, textos que de certa forma influenciaram a grande obra Kosmos, de Alexander von Humboldt. Apesar da valorosa contribuição do naturalista para o estudo da zoologia do Brasil, foi a República Argentina que lhe rendeu o seu livro mais conhecido, Description de La Republique Argentine, fruto este dos quatro anos de viagem e pesquisa árdua neste país. Outra obra sua de referência da paleontologia americana é Die fossilen Pferde der Pampasformation.

Hermann Burmeister descobriu mais de 50 espécies animais e vegetais e o seu nome consta em várias dessas espécies, como por exemplo, a Geoplana busrmeisteri Schultze (1857) e Monochoda burmeisteri Saussurre (1862), entre outras. Durante sua vida obteve reconhecimento por seu mérito cientifico, sendo por isto condecorado pelo rei Guilherme I da Prússia com a Cruz da 3ª classe da Ordem da Coroa, e por Dom Pedro II nomeado Dignitário da Ordem da Rosa, além de membro honorário de diversas instituições científicas. O seu manual de entomologia é considerado por muitos pesquisadores uma verdadeira bíblia.

É apaixonante a leitura dos relatos dos viajantes que estiveram no Brasil, principalmente no século XIX. Eles andaram pelos sertões deste Novo Mundo e transmitiram, com simplicidade narrativa, suas impressões sobre a cultura, a fauna, a flora e o pitoresco caráter dos habitantes das terras brasileiras. Outro aspecto interessante sobre as expedições dos naturalistas no Brasil são as iconografias produzidas por eles. Estas gravuras compõem junto com os textos referentes a elas um cenário descritivo sobre as paisagens e a população do país no século XIX. Atualmente, estas gravuras estão se desvinculando do seu contexto original e do seu caráter científico, adquirindo com isto cada vez mais uma conotação artística. No primeiro exemplar publicado por Hermann Burmeister sobre o Brasil podemos observar uma escrita fina influenciada pelo período romântico e pelo espírito iluminista, características que até hoje dão vida e beleza à obra desse impressionante viajante.

Devida a grande importância destes desbravadores do Brasil a Brasiliana USP desenvolve junto à comunidade acadêmica da Universidade de São de Paulo um projeto de catalogação, descrição e edição de diversas obras em língua portuguesa e estrangeira. A tradução da iconografia de parte das obras dos muitos viajantes, naturalistas e pensadores estimulam a leitura e o fácil acesso deste conteúdo aos usuários. A participação de alunos neste projeto é outro diferencial. Orientados por especialistas, acabam adquirindo um enriquecedor desenvolvimento acadêmico e envolvimento científico junto à Universidade, ao mesmo tempo em que juntos proporcionam a divulgação cultural a toda comunidade acadêmica e também ao público em geral.

Sugestões de leitura:
Biblioteca Brasiliana da Robert Bosch GmBH. Rio de Janeiro: Livraria Kosmos editora, 1992.
BURMEISTER, Hermann. Viagem ao Brasil – Através das províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Tradução de Manoel Salvaterra e Hubert Schoenfeldt. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Ltda / São Paulo: EdUSP, 1980.
Im Banne der Anden. Reisen deutscher Forscher des 19. Jahrhundesrts. Berlin: Verlag der Nation, Herausgegeben von Herbert Scurla.
Memoria de la Comision del Monumento a Burmeister. Buenos Aires, Belgrano, 1903.
* Luciana de Fátima Candido é aluna do curso de Letras (português/alemão) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo
Sobre o autor: 
Luciana de Fátima Candido é aluna do curso de Letras (português/alemão) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.