"Allgemeine Historie der Reisen [...]": literatura de viagens, viajantes e navegadores

Allgemeine Historie der Reisen zu Wasser und Lande [...] é uma das mais amplas e importantes coleções de relatos de viagens. Publicada no século XVIII, entre os anos de 1747 e 1774, é formada por 21 volumes que descrevem histórias gerais das viagens feitas por terra ou por mar em quatro continentes — o africano, o asiático, o americano e o europeu —, explorando sua rica variedade cultural.

Estas crônicas enquadram-se no gênero literatura de viagem e nelas foram abordados diversos temas que versam sobre os modos e costumes dos habitantes, seus rituais, sua religião, sua forma de governo, suas artes e ciências, seu comércio e suas manufaturas, traçando um panorama complexo da geografia moderna e das histórias de navegação. Os mapas e as iconografias configuram um capítulo à parte destes relatos de viagens, pois além do grande número de fatos históricos descritos nesta coleção, o pesquisador se depara com o frontispício de Hubert François Bourguignon Gravelot (1699-1773), com belíssimas iluminuras, diversos mapas desenhados pelo célebre cartógrafo Jacques Nicolas Bellin (1703-1772) e inúmeras imagens que foram gravadas por artistas hábeis como Charles-Nicolas Cochin (1715-1790). As iconografias mostram, por exemplo, vistas das cidades, cenas dos costumes dos habitantes locais e alguns rituais idiossincráticos.

Johann Joachim Schwabe (1714-1784), além de notável tradutor, foi bibliotecário, filósofo e membro da Real Academia Prussiana de Ciências. Ao que tudo indica, Schwabe baseou-se em edições análogas, como a coleção britânica e francesa, para organizar a tradução desses relatos de viagens para o alemão. A coletânea britânica, A new general collection of voyages and travels (1745-1747), possui quatro volumes e foi escrita por Thomas Astley. Já a compilação francesa Histoire générale des voyages (1746-1791) está organizada em 20 volumes, boa parte deles estabelecidos por François Prévost.

De forma geral, o volume que abre a coletânea britânica trata das primeiras viagens dos portugueses para as Índias Orientais (1418-1546); das primeiras viagens dos ingleses à Guiné e às Índias Orientais (1522-1598); das viagens britânicas para as Índias Orientais entre 1600 e 1620, e das viagens para a África e ilhas adjacentes ocorridas entre os anos de 1455 e 1721. O segundo volume discorre sobre as viagens ao longo da costa ocidental da África, entre 1637 e 1735, e traz descrições de Guiné e Benin para os anos compreendidos entre 1666 e 1726. O terceiro volume descreve as viagens para Guiné, Benin, Congo, Angola, Bengala e países adjacentes; apresenta minuciosamente os países ao longo da costa oriental da África até o Cabo da Boa Esperança e traz detalhes de viagens à China entre 1655 e 1722. Por fim, o quarto e último volume aborda as viagens à China, Coréia, Tibete oriental, Tartária e Bukharia ocorridas entre 1246 e 1698.

No que diz respeito ao conjunto francês, os sete primeiros volumes são uma tradução da coleção A new general collection of voyages and travels. Já os volumes VIII ao XV foram compilados pelo abade Prévost. O volume XVI (1761) é o índice geral desses quinze volumes. Os quatro últimos tomos datam respectivamente de 1761, 1768, 1770 e 1789 e são as continuações das obras de Anne-Gabriel Meusnier De Querlon e Jacques-Philibert Rousselot De Surgy.

Não existe, ao certo, um senso comum sobre a organização editorial da coleção alemã que aqui disponibilizamos. Há estudos que relatam a utilização das duas coleções — a britânica e a francesa — para compô-la. Outros pesquisadores expõem que, no princípio, os tradutores alemães pensaram em valer-se unicamente da compilação francesa, mas logo perceberam a falta de refinamento da tradução do inglês para o francês uma vez que Prévost não teria respeitado os direitos autorais da coleção britânica, fazendo diversas alterações não autorizadas. As pesquisas revelam que o abade não só mudou a forma original, mas também o seu contéudo. Além disso, existem partes na tradução francesa com sentido oposto ao relato britânico. Apesar da crítica à edição parisiense, o estilo narrativo de Prévost impressiona e agradou os leitores da época, caracterizando-se como uma obra ficcional que tem como base uma referência estética voltada para a natureza. Para isso, foi preciso algumas passagens coletadas dos relatos de viagens que ele encontrou em abundância nos quatro volumes de A new general collection of voyages and travels.

Depois de percebida estas incoerências no processo tradutório francês que comprometiam a mesma de forma significativa, Schwabe informou que utilizaria como texto base para a sua edição a coleção britânica e outras fontes que ele considerasse confiáveis. Fato que lhe conferiu a segurança necessária para a organização dos demais volumes e posterior sucesso editoral da coleção.

A volumosa produção literária resultante dos relatos de viagens é, sem dúvida, um dos mais importantes legados da humanidade. A partir do século XV essas crônicas se transformaram num arcabouço documental que muitas vezes nos permite construir um olhar diferenciado sobre a época estudada. A escrita desses relatos intensificou-se no final do século XVI com os desdobramentos das grandes navegações, momento em que esses viajantes-autores, ávidos pelo desconhecido, descobrem novos territórios, costumes, crenças e sistemas políticos.

As próprias viagens e a produção de documentos favorecida por elas passaram por transformações significativas e por fases de grande valorização ao longo dos séculos. Destacamos aqui, por exemplo, a propagação dos registros depois da conhecida “revolução de Gutenberg” no século XV e as chamadas viagens de exploração científica a partir da segunda metade do século XVIII. Toda essa produção documental e sua consequente contribuição para os estudos etnográficos podem ser observadas nos relatos de viagens, dos viajantes e dos diversos navegantes, cujas descrições foram estabelecidas na edição alemã Allgemeine Historie der Reisen zu Wasser und Lande...

Fazendo referência aos ensinamentos do historiador Jacques Le Goff, “O documento não é inócuo. É antes de mais nada o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que o produziram, mas também das épocas sucessivas durante as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as quais continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio. O documento é uma coisa que fica, que dura, e o testemunho, o ensinamento (para evocar a etimologia) que ele traz devem ser em primeiro lugar analisados, desmistificando-lhe o seu significado aparente. O documento é monumento. Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro — voluntária ou involuntariamente — determinada imagem de si próprias”. [História e Memória/, 2003, p.537-538].

As narrativas produzidas pelos viajantes exprimem, de forma singular, o seu próprio recorte de mundo reclassificando a realidade observada. A cada relato analisado, discutido por especialistas, um novo capítulo da história se reescreve.

Sugestões de leitura:

LE GOFF, Jacques. Documento/monumento. In: História e Memória. 5ª ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2003.

HEUER, Ursel. Reiseberichte aus dem 18. Jahrhundert – Nikolaus Horstmann, ein Hildesheimer Forschungsreisender. Disponível em: http://www.hildesheim.de/pics/download/1_1257238947/dok_079_reisebericht_text.pdf. Data de acesso: 11/03/2013.

Sobre o autor: 
Luciana de Fátima Cândido é aluna do curso de Letras (português/alemão) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.