François-Auguste Biard: retratos do Brasil com humor e ironia

No final do século XVIII nascia o pintor de costumes François-Auguste Biard, mais precisamente no ano de 1798, em Lyon, França. Seguindo a prática da época, Biard foi destinado pela família a seguir carreira religiosa. No entanto, foi no campo das artes que encontrou sua vocação, ingressando na escola de Belas Artes de Lyon na década de 1820. Mais tarde, em 1827, tornou-se professor de desenho da Marinha, posto que possibilitou seu contato com outras culturas da Europa.

As viagens o fascinavam a tal ponto que passou a coletar objetos exóticos por interesse antropológico e a registrar suas impressões pela pintura, em telas que fazia com representações dos locais por onde passava. Expõe, no salão de 1818, sua primeira obra, Les enfants perdus dans la forêt. Em algumas dessas exposições, que aconteciam nos Salões de Paris, chegou a ganhar medalhas.

Os quadros de Biard interessavam não só aos entendidos em arte, mas principalmente ao grande público, que apreciava as pinceladas de humor mordaz impressas em suas obras. Porém, houve momentos em que o aspecto satírico de sua arte o prejudicou. Por esse motivo, começa a trabalhar com uma temática preferencialmente histórica.

Biard pode ser considerado um pintor naturalista, já que em suas pinturas as cenas do cotidiano e da natureza são recorrentes. É possível verificar essa característica do artista nos painéis feitos para o Museu Nacional de História Natural de Paris na ocasião de uma expedição para Spitzberg, Noruega, em 1838. Foi, aliás, nessa década de 1830, que Biard constituiu-se um artista de renome.

Além do título de pintor, Biard exerceu também o cargo de retratista oficial da corte de Luís Filipe, na época da Monarquia de Julho na França. Dentre as muitas viagens que fez nesse posto está a viagem para o Brasil de 1858, durante a qual é nomeado professor da Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro. No país, Biard percorreu várias cidades brasileiras, desde o Espírito Santo até o Amazonas, e conviveu com várias tribos, as quais, pelos relatos em que descreve sua dificuldade em encontrar o dito “índio selvagem”, já haviam tido, em sua maioria, algum contato com o ‘homem branco’.

Em 1862, publica na França o livro Deux années au Brésil, contendo relatos, vinhetas e imagens de sua viagem. O relato da vivência de Biard no Brasil, como não poderia deixar de ser em se tratando desse pintor, é recheado de cenas cômicas apresentadas por uma linguagem que tende ao sarcasmo.

Com cerca de 180 gravuras feitas por E. Riou a partir dos croquis de Biard, Deux années au Brésil retrata os índios brasileiros de maneira singular. Se os predecessores do artista descreviam o índio pela pintura ou pela escrita privilegiando o que seriam dois polos contrários de sua natureza – ora como o idealizado bom selvagem, ora como o cruel e sanguinário primitivo – Biard, por sua vez, o apresentava como um indivíduo corrompido. Mesmo que essa visão tenha dividido críticos quanto ao valor e a veracidade da obra, que deteriora sobremaneira a imagem do Brasil, o retrato que Biard faz dos índios como sujeitos corrompidos, distante, portanto, da idealização romântica que tradicionalmente os acompanhou, permite que o estudioso ou o curioso possa vê-los e entendê-los de forma mais ampla, sem predisposições unilaterais.

Sugestões de leitura:

ARAÚJO, Ana Lúcia. Bon Sauvage ou Méphistophélès? La Représentation de l’amérindien brésilien dans les relations Voyage Pittoresque et Historique Au Brésil (1834) et Deux Années Au Brésil (1862). Ver: http://www.com.ulaval.ca/publications/

ARAÚJO, Ana Lúcia. Encontros difíceis: o artista-herói e os índios corrompidos no relato de viagem Deux Années au Brésil (1862). Luso-Brazilian Review, Vol.42, N.2, 2005, p.15-39.

ARAÚJO, Ana Lúcia. Romantisme tropical: l'aventure illustrée d'un peintre français au Brésil. Québec : Les Presses de l’Université Laval, 2008.

Sobre o autor: 
Omotayo Itunnu Yussuf é bolsista, sob a orientação da Professora Adriana Zavaglia, do programa Aprender com Cultura e Extensão