Casimiro de Abreu (1839-1860)

Casimiro José Marques de Abreu (1839-1860) parece ter sido o poeta mais popular do seu tempo, dos mais lidos e declamados. É verdade que sua poesia sofre com a repetição excessiva de temas e recursos formais, mas também é verdade que com ele se atinge uma naturalidade de expressão, um aproveitamento da linguagem coloquial que só encontrará equivalente, muito tempo depois, na obra de um Manuel Bandeira. É seu traço inconfundível a evocação sentimental de pequenos objetos e cenas de infância. Seu poema mais conhecido, “Meus oito anos” é também um dos mais famosos da história literária brasileira e, como a “Canção do exílio” de Gonçalves Dias, teve expressões que passaram para a linguagem mais ampla do trato comum.

Sua poesia, o mais das vezes centrada no momentoso tema do namoro, foi lida principalmente pelas moças casadoiras da boa sociedade carioca e modulada ao piano. Casimiro, como um bom valsista, conseguia o difícil equilíbrio entre a sensualidade atrevida, o negaceio recatado e a expressão convencional da paixão amorosa.

Nas palavras introdutórias às Primaveras (1859), o poeta traçou com muita clareza os seus modestos objetivos:

O filho dos trópicos deve escrever numa linguagem – propriamente sua – lânguida como ele, quente como o sol que o abrasa, grande e misteriosa como as suas matas seculares; o beijo apaixonado das Celutas deve inspirar epopéias como a dos – Timbiras – e acordar os Renés enfastiados do desalento que os mata. Até então, até seguirmos o vôo arrojado do poeta de – I-Juca-Pirama – nós, cantores novéis, somos as vozes secundárias que se perdem no conjunto duma grande orquestra; há o único mérito de não ficarmos calados.

Da grandeza e do mistério das matas seculares, é preciso dizer, não há traço em sua poesia. Em compensação, nada há de mais lânguido no romantismo brasileiro e poucos escritores corresponderam como Casimiro às expectativas de seu meio e de seu público. Menos culto e menos inquieto do que Álvares de Azevedo, forma com ele um contraponto interessante. Ambos expressam aquele momento em que ao homem fatal byroniano se substitui o homem inerme, seduzido e sedutor pela fraqueza. Mas enquanto em Azevedo essa passagem é toda ela tensa, dramática, carregada de culpa – de que um dos índices é o tema do homem e da mulher travestidos –, em Casimiro é fluida, dissolvente, como em Amor e medo, onde o poeta por um momento assimila por completo o papel feminino. Mário de Andrade chamou a atenção para a segunda parte do poema, em que o medo do amor se revela temor e desejo de macular a virgem com a violência do desejo carnal. Não obstante a justeza da observação, é impressionante, no poema referido, a total assunção das características femininas pelo poeta, a ponto de sentir os seios intumescerem.

A lírica de Casimiro é, de fato, muito feminina – no sentido em que boa parte do lirismo tradicional português é feminino. Sérgio Buarque de Hollanda desenvolveu esse argumento no prefácio aos Supiros poéticos e saudades de Magalhães. Em sua opinião, a poesia lírica portuguesa tradicional caracteriza-se por exprimir singelamente a vida pessoal, com um mínimo de vontade disciplinadora. Como qualquer definição muito abrangente, esta também poderia ser refutada com muitos exemplos particulares. Vale, no entanto, de modo geral, quanto à longa tradição do lirismo inspirado nas cantigas-de-amigo. E não é difícil ver que o historiador tinha em mente a obra de Casimiro de Abreu quando escrevia:

Se o romantismo adaptou-se tão bem ao nosso gênio nacional, a ponto de quase se poder dizer que nunca nossa poesia pareceu tão legitimamente nossa como sob a sua influência, deve-se ao fato de persistir, aqui como em Portugal, o velho prestígio das formas simples e espontâneas, dos sentimentos pessoais, a despeito das contorções e disciplinas seculares do cultismo e do classicismo.

Abordando a seguir, e de passagem, o lugar do poeta das Primaveras, escreve o seguinte:

É possível salientar na evolução de nosso romantismo [...] uma intensidade progressiva na inspiração pessoal e uma crescente naturalidade na expressão.

É nessa simplicidade de expressão, no efeito de naturalidade que ela provoca que reside, ainda hoje, o maior interesse de sua poesia.

Sugestões de leitura:
Andrade, Mário de. “Amor e medo”. Em Aspectos da literatura brasileira. São Paulo: Martins/ Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1972.
Candido, Antonio. “O ‘belo, doce e meigo’: Casimiro de Abreu”. Em Formação da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2009.
Hollanda, Sérgio Buarque de. “Prefácio” a D. J. Gonçalves de Magalhães. Obras Completas, vol. II. Rio de Janeiro, Ministério da Educação, 1939, pp.IX-XXXI
Sobre o autor: 
Paulo Franchetti é professor titular do Departamento de Teoria Literária da Unicamp.