Barleus: Oito anos de Nassau no Brasil

Encomendada ao humanista Caspar van Baerle (1584-1648), ou Gaspar Barleus, como veio a ser conhecido no Brasil, a obra Rerum per octennium in Brasilia (História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil) se propunha a narrar – ou enaltecer – os feitos do conde Maurício de Nassau. O panegírico, referente aos período em que Nassau esteve à frente do governo neerlandês nas terras brasílicas, foi publicado em 1647 por uma das mais importantes tipografias holandesas, a Ioannes Blaeu, de Amsterdã. Com 340 páginas e 56 ilustrações, entre elas o retrato de Nassau por Theodor Matham (1605-1660), mapas de George Marcgraf (1610-1644) e gravuras de Frans Post (1612-1680), essa edição comporia uma das mais suntuosas publicações do século XVII na República das Províncias Unidas. Em 1660, apareceria uma segunda edição neerlandesa, também em latim, pela tipografia Tobias Silberling, a mesma que havia publicado no ano anterior o texto de Barleus em alemão. A primeira edição em português, também disponível aqui, foi organizada em 1940, em comemoração ao terceiro centenário da ocupação holandesa, com tradução e notas de Cláudio Brandão.

A obra de Gaspar Barleus faz parte das inúmeras publicações sobre o Novo Mundo que começaram a aparecer nas Províncias a partir do século XVI, início das expedições neerlandesas ao redor do mundo. Quando da ocupação das capitanias do Norte do Estado do Brasil – Pernambuco, Itamaracá, Paraíba e Rio Grande – pela Companhia das Índias Ocidentais neerlandesa (WIC), entre 1630 e 1654, a quantidade de publicações aumentou bastante no mercado de livro. Mesmo antes da conquista, já circulavam por lá textos sobre as terras brasileiras, em especial relacionados a sua lucrativa produção açucareira. Diários e roteiros de viagem, crônicas e folhetos, às vezes acompanhados de mapas e gravuras, formavam um conjunto de informações geográficas, botânicas, zoológicas e étnicas sobre os trópicos. No caso particular do Brasil, essas informações se avolumaram em especial a partir da administração nassoviana.

O conde João Maurício de Nassau-Siegen (1604-1679), nascido em Dillenburg, atual Alemanha, cedo ingressou na carreira militar a serviço dos Países Baixos. Em 1636 a WIC lhe fez o convite para administrar as possessões no Brasil, recebendo os títulos de Governador, Almirante e Capitão-General. Acompanhado por uma frota de 4 navios e 350 soldados, chegou a Pernambuco em janeiro de 1637, trazendo uma comissão artística de médicos, botânicos, cartógrafos, pintores e gravuristas. Entre eles se destacavam o médico e naturalista Willem Piso (1611-1678), o cartógrafo e astrônomo George Marcgraf e os pintores Albert Eckhout (1610-1666) e Frans Post – que, no conjunto, produziram uma impressionante documentação sobre o Brasil. Com os neerlandeses, contudo, os registros acerca da conquista brasileira não se restringiram a artistas e naturalistas ou mesmo se limitaram ao governo de Nassau. Era prática comum documentarem clima, geografia, divisão político-administrativa, estrutura de defesa militar, produção agrícola e costumes dos povos locais como instrumentos de conquista; vejam-se os muitos relatórios produzidos pelos funcionácios da Companhia que serviram na colônia.

De volta à Europa, em 1644, Nassau resolveu reunir e entregar todos esses registros artísticos e históricos a alguém que pudesse transformá-los em um livro de caráter laudatório. Não foi por acaso que confiou a Gaspar Barleus a tarefa de relatar os sete anos de seu governo no Brasil, ainda que o escritor nunca tivesse estado na América. Nascido em Antuérpia, partiu para a Holanda fugindo do exército espanhol e lá se tornou um dos mais respeitados escritores e poetas seiscentista. Chegou a lecionar lógica na Universidade de Leiden e foi nomeado professor de filosofia e retórica no Athenaeum Ilustre de Amsterdã, onde conviveu com renomados artistas e pensadores de seu tempo, como Rembrandt, Baruch de Spinoza e Hugo Grotius. Barleus cumpriu muito bem a tarefa que lhe foi atribuída por Nassau. E o resultado foi a reunião do conhecimento produzido sob o domínio neerlandês – mapas, gravuras e relatórios – em uma bela obra, o Rerum per octennium in Brasilia, cujos exemplares foram enviados pelo conde a várias cortes européias como forma de propaganda de seus feitos no Novo Mundo.

Os neerlandeses não foram os primeiros a retratar os povos e as terras do ultramar, nem a apresentar seus registros aos europeus; mas foram os que o fizeram com maior intensidade no século XVII. Destacaram-se ainda pela preocupação em publicar esses registros e inseri-los nas coleções científicas da Europa. Nesse contexto, a experiência neerlandesa no Brasil, apesar de efêmera, produziu e nos legou um enorme e valioso corpus documental, e a obra de Barleus está, sem dúvida, entre as mais importantes fontes historiográficas do período conhecido como Brasil Holandês. Não somente por seus relatos de batalhas e conquistas territoriais, mas também por seus mapas do litoral, plantas dos núcleos urbanos e gravuras retratando cenas, paisagens e vistas marítimas brasileiras, Rerum per octennium in Brasilia tem sido utilizado como fonte desde o século XIX e permanece sendo consultada por estudiosos da arte, historiadores e urbanistas.

Sugestões de leitura:
José Honório Rodrigues, Historiografia e Bibliografia do domínio holandês no Brasil. Rio de Janeiro, Departamento de Imprensa Nacional, 1949.
Eddy Stols, “A iconografia do Brasil nos Países Baixos do século XVI ao século XX”. Revista USP, Dossiê Brasil dos Viajantes, 1996, pp. 20-31.
Evaldo Cabral de Mello, Nassau: governador do Brasil Holandês. São Paulo, Cia das Letras, 2006.
Sobre o autor: 
Fernanda Trindade Luciani é doutoranda em História Social pela Universidade de São Paulo.