Fernão Cardim (1540-1625)

Os conhecidos textos quinhentistas do padre jesuíta português Fernão Cardim, produzidos entre 1583 e 1601 durante sua primeira estadia no Brasil, foram reunidos e publicados em português sob sua autoria apenas em 1925. Essa primeira edição, disponível aqui, organizada por Rodolfo Garcia, Capistrano de Abreu e Afrânio Peixoto sob o título Tratados da terra e gente do Brasil, reúne três escritos de Cardim que são de grande valor para os estudos da História do Brasil Colonial no que diz respeito não somente à descrição da paisagem e dos animais americanos, mas também às atividades econômicas das capitanias compreendidas entre Pernambuco e São Vicente e, sobretudo, aos costumes dos povos indígenas e à ação das missões jesuíticas na colônia.

O missionário Fernão Cardim, nascido em Viana do Alentejo ao redor de 1548-1549, tornou-se membro da Companhia de Jesus em 1556. A longa história de quase quarenta anos que o liga ao Brasil inicia-se em 1582, quando o jesuíta foi designado secretário do padre visitador Christóvão de Gouvêa. No ano seguinte, ambos embarcariam, junto ao governador Manuel Telles Barreto e mais outros padres, em direção à colônia, aportando na Bahia em maio de 1583. Cardim passou dois duradouros períodos vivendo no Brasil (1583 a 1598 e 1603 a 1625, ano de sua morte), interrompidos por sua volta à Europa em 1598 quando foi eleito, na congregação provincial, procurador da Província do Brasil em Roma. Cumprida essa função, já embarcava em 1601, com o padre João Madureira, que vinha como visitador, e mais quinze jesuítas, em uma urna flamenga que partia de Lisboa rumo ao Brasil. Contudo, um imprevisto o afastaria por mais dois anos das terras brasileiras: a embarcação que o conduzia à América foi aprisionada por corsários ingleses e alguns de seus tripulantes, entre eles Cardim, foram conduzidos à Inglaterra. O padre, então, permaneceu em cárcere inglês até 1603, ano em que foi solto e pode retornar ao Brasil como Provincial da Companhia de Jesus, cargo que exerceu até 1609, quando assumiu o de reitor do Colégio Jesuíta da Bahia e o de vice-provincial.

Publicada em 1925 em comemoração ao tricentenário da morte de Fernão Cardim, que veio a falecer na Aldeia de Abrantes na Bahia em 27 de janeiro de 1625, a obra Tratados da terra e gente do Brasil está dividida em três partes, que correspondem aos três manuscritos do padre transcritos, compilados e anotados pelos organizadores dessa primeira edição. São dois tratados, Do Clima e Terra do Brasil e Do Principio e Origem dos índios do Brasil, e duas cartas reunidas sob o título Narrativa epistolar de uma missão jesuítica ou Informação da Missão do Padre Christovão de Gouvêa às partes do Brasil. Os três manuscritos estão preservados no acervo da Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Évora, incluídos em um códice intitulado Miscelânia, Cousas do Brasil, que reúne textos de diferentes autores quinhentistas.

Dois desses escritos de Cardim, Do Clima e Terra do Brasil e Do Principio e Origem dos índios do Brasil, haviam sido publicados em Londres já em 1625, numa tradução inglesa, na coleção de viagens Purchas his Pilgrimes, após os manuscritos do padre terem sido confiscados pelos corsários ingleses e vendidos ao editor Samuel Purchas. Sob o título A Treatise of Brazil written by a Portugall which had long lived there, a autoria da obra foi atribuída a Manuel Tristão, enfermeiro do Colégio da Bahia, cuja assinatura se encontrava em algumas receitas medicinais anexadas aos manuscritos confiscados de Cardim. Foi Capistrano de Abreu quem primeiro atribuiu a autoria desses textos a Fernão Cardim, publicando pela primeira vez em português, em 1881, o escrito do jesuíta referente aos índios. Essa edição, Do principio e origem dos indios do Brasil e de seus costumes, adoração e ceremonias (Rio de Janeiro: Typographia da Gazeta de Noticias, 1881), disponível aqui, inclui ainda o texto do estudioso em que defende e justifica a autoria de Cardim.

No terceiro texto da obra, Narrativa epistolar, que compreende duas cartas, datadas de 1585 e 1590, aos Provinciais de Portugal, o padre Cardim oferece um relato da situação da colônia durante os anos que percorreu as capitanias da Bahia, Ilhéus, Porto Seguro, Pernambuco, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Vicente (mais tarde São Paulo) enquanto secretário do visitador. Ali descreve, sobre cada uma das capitanias, as atividades desenvolvidas, os engenhos de açúcar e seu funcionamento, os principais produtos explorados, o governo local, os costumes indígenas e a paisagem, além de relatar as ordens proferidas pelo visitador para bom funcionamento dos colégios e das residências existentes. Essas epístolas foram os primeiros escritos de Cardim publicados em português, depois de permanecerem inéditos por mais de dois séculos. Vieram a público apenas no século XIX, na edição que também se encontra disponível aqui, organizada pelo historiador Adolfo de Varnhagen (Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuitica etc., Lisboa: Imprensa Nacional, 1847).

Os escritos de Cardim incluem-se na produção literária de viajantes, colonos e religiosos que, no contexto das descobertas e exploração do ultramar, descreviam o Novo Mundo no intuito de informar a Coroa – ou, no caso da Narrativa Epistolar dessa jesuíta, informar seus superiores da Companhia – a respeito das condições e potencialidades daquelas terras. Outras cartas do padre foram endereçadas ao rei Felipe II (I de Portugal) com o mesmo teor, apresentando questões para as quais este deveria atentar na colônia brasileira. As informações produzidas por esses homens, como as reunidas nos tratados de Fernão Cardim, permanecem como fonte para os estudos dos princípios da colonização portuguesa no Brasil, sobretudo se considerarmos a escassez de documentação produzida naqueles tempos.

Sugestões de leitura:
CARDIM, Fernão Cardim. Tratados da terra e gente do Brasil. Introdução e notas de Ana Maria de Azevedo. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1997.
AZEVEDO, Ana Maria. O Padre Fernão Cardim (1548-1625). Contribuição para o Estudo de sua Vida e Obra. Dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2 vols., 1996.
Sobre o autor: 
Fernanda Trindade Luciani é doutoranda em História Social pela Universidade de São Paulo.