A Sala de Grandes Formatos da BBM tem o nome da curadora, que cuidou do acervo do casal Guita e José Mindlin por mais de 30 anos
Publicado: 24/07/2025
Por Tatiana Couto*
Neste ano, em 23 de março, completou-se 12 anos da inauguração do prédio e do funcionamento pleno das atividades da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. Levando em conta o gesto de doação do acervo pelo casal Guita e José Mindlin, realizado em 2006, mais 7 anos seriam somados à comemoração desta data.
Para contar um pouco mais sobre a Biblioteca, iniciaremos a publicação de uma série de textos sobre os espaços da BBM nomeados em homenagem a pessoas que, de alguma forma, estiveram ligadas à história da Biblioteca: Laboratório de Conservação Preventiva Guita Mindlin, Sala Villa-Lobos, Sala de Consulta Rubens Borba de Moraes e Sala dos Grandes Formatos Cristina Antunes.
Esta quarta publicação da série apresenta quem foi Maria Cristina de Carvalho Antunes (1951-2019), que era responsável pela curadoria e organização da biblioteca até 2019, e nomeia uma sala da BBM. A Sala de Grandes Formatos Cristina Antunes está localizada no primeiro andar do prédio da Biblioteca, e, como indica o nome, é o local onde estão abrigados os livros de grandes formatos. Diferente das obras convencionais, muitas das obras se encontram “deitadas" em estantes que podem ser puxadas como gavetas.

Cristina Antunes. Foto: Maria Leonor de Calasans via IEA.
Como explica Jeanne Beserra Lopez, bibliotecária da BBM, essa forma de conservação é mais adequada para essas obras: “Os livros bem encadernados podem ficar de pé, mas as gravuras e as obras com uma brochura mais frágil, justamente pelo seu grande formato, precisam ficar “deitadas””.
Neste espaço trabalha a equipe do Serviço de Biblioteca e Documentação, responsável por todo o trabalho de gestão do acervo, envolvendo a catalogação, indexação, curadoria e processamento técnico. Antes de qualquer obra ser digitalizada ou higienizada, atividades realizadas em outros setores do prédio, ela deve passar por aqui. Além disso, a equipe também atende e guia os pesquisadores e editoras interessadas em consultar os livros. “Têm editoras que também querem, às vezes, usar as imagens do nosso acervo para publicar algum livro didático ou livro de pesquisa mesmo”, revela Jeanne.
Por mais de 30 anos, Cristina Antunes se dedicou à curadoria e organização da vasta biblioteca do empresário e bibliófilo José Mindlin. Ela foi responsável por cuidar de uma das brasilianas mais importantes do mundo e acompanhou de perto todas suas modificações, desde quando todo o acervo se encontrava na casa do casal Mindlin, até sua mudança para a Cidade Universitária, onde hoje ele se encontra.
Amor pelos livros
Nascida em 1951 em Recife, Pernambuco, Cristina passou a infância imersa na leitura. Apesar de seus outros quatro irmãos não compartilharem do mesmo interesse, ela por sua vez seguiu os passos de sua mãe, e se tornou uma ávida leitora bem cedo. Aos sete anos, recebeu de presente a História do Mundo para as Crianças de Monteiro Lobato, o qual foi o marco zero para seu amor pelos livros.
Cristina passou a frequentar algumas bibliotecas de sua cidade, e aos nove anos, sua mãe a inscreveu em um clube do livro que lhe enviava as obras por correio. Isso contribuiu não apenas para estreitar sua relação com a leitura, mas também para lhe despertar uma nova paixão: o colecionismo, sobretudo de cordéis com capas em xilogravuras. Contudo, a enchente de 1968 em Recife levou toda a coleção da jovem. No ano seguinte, mudou-se para São Paulo, aos 18 anos, para cursar Pedagogia na Pontifícia Universidade Católica (PUC). Nesta mesma época, começou a trabalhar no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde ficou encantada com sua vasta biblioteca, e lá permaneceu até 1974.
Lá, construiu uma forte amizade com a especialista em obras raras Rosemarie Horch, a qual, de acordo com a própria Cristina em entrevistas, a adotou como pupila e lhe ensinou tudo sobre obras raras. Também se aproximou de outras figuras importantes para sua formação, como o educador Fernando de Azevedo e o bibliógrafo, bibliófilo e historiador Rubens Borba de Moraes, o qual possuía uma vasta Brasiliana, termo designado à coleção de obras (sejam estudos, livros, filmes, músicas, etc.), relativas ao Brasil. Anos mais tarde, o historiador viria a doar seu acervo para seu amigo próximo José Mindlin, o qual incorporou a doação para sua própria biblioteca pessoal. Clique aqui para saber mais sobre Rubens Borba de Moraes, que também nomeia um espaço da BBM.
Biblioteca dos Mindlin
No seu livro Memórias de uma Guardadora de Livros, publicado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, em 2004, Cristina reúne uma série de entrevistas realizadas com ela e narra sua vivência na biblioteca ao longo dos anos, nos aproximando de suas experiências e impressões. Os relatos e memórias a seguir foram retirados desta obra.

Cristiana Antunes na Biblioteca Mindlin. Foto: Daniela Pires.
Em 1980, José Mindlin e sua esposa Guita procuravam alguém para ajudá-los a organizar sua já enorme coleção de obras raras e foi então que encontraram Cristina. Apesar de não ter formação como bibliotecária, ela diz que sua paixão genuína pela leitura foi o que lhe garantiu esta colaboração com a família Mindlin que durou mais de 30 anos.
Sua principal dificuldade no início do trabalho era assimilar a quantidade de informações que Mindlin lhe passava quando ia à biblioteca. Com o passar do tempo, ela não apenas se adaptou a esse ritmo, mas ouvir as histórias sobre os livros se tornou um prazer: passou a conhecer o caráter das obras, como chegaram lá, sobre o que se tratavam. A organização da biblioteca em si não lhe parecia difícil, e logo de início conseguiu cumprir com suas funções tranquilamente. Cerca de cinco anos depois, com a construção do segundo prédio, ela participou da reorganização do acervo. Os critérios lógicos de Mindlin aliados às habilidades de Cristina fizeram com que este processo de reorganização e catalogação fossem razoavelmente simples.
Quando começou a trabalhar lá, Cristina tinha apenas uma colega de trabalho, Alice Fontes, a qual deixou seu cargo no ano seguinte. Iniciou-se então um período de duas décadas em que Cristina era uma das únicas cuidadoras dos livros, junto da faxineira Marivalda, encarregada da higienização constante das obras, e claro, da “dona Guita”, a qual Cristina sempre lembrou com muito carinho. O aumento expressivo do acervo nos seus últimos dez anos na casa de Mindlin fez com que sua equipe também precisasse ser ampliada. Foram então contratadas mais pessoas — todas mulheres — para cuidar dos exemplares e, sempre que possível, lê-los.
Com o tempo, a curadora começou a conhecer mais sobre a organização da biblioteca que o próprio Mindlin, afinal, era ela quem estava lá todos os dias cuidando dela e auxiliando pesquisadores que solicitavam acesso ao acervo. O bibliófilo recebia muitas pessoas em sua casa, geralmente pesquisadores, outros amantes dos livros e até mesmo figuras ilustres as quais Cristina teve a oportunidade de conhecer, como o escritor português José Saramago.
O passar dos anos também foi responsável pela gradativa perda de visão de Mindlin, ou a “injustiça do destino”, como o próprio a chamava; um desfecho cruel para um amante da leitura. A pedido do próprio José, Cristina passou a ler em voz alta as obras requisitadas por ele, ou por vezes, as que ela mesma sugeria. A leitura então se tornou uma atividade compartilhada e Cristina pegou gosto por isso.

Sala dos Grandes Formatos. Foto: Eliete Viana.
Trabalho na BBM
Antes da mudança para o novo prédio da BBM na Cidade Universitária, Cristina foi aprovada em um concurso para lá trabalhar, ingressando novamente como funcionária da USP em julho de 2012, um ano antes da inauguração do prédio e do pleno funcionamento das atividades ao público.
Contudo, a mudança não foi fácil para ela. Em entrevistas, Cristina admite que apesar das qualidades do novo edifício (sua beleza, o controle de umidade e temperatura, etc.), ela tinha dificuldade de aceitar que esse era o lugar em que os livros deveriam estar. “Ela dizia que a casa de Mindlin era um ambiente mais aconchegante, mais humano. Aqui há a sensação de que as pessoas estão mais distantes”, comenta Jeanne, uma das bibliotecárias da BBM e que conviveu com Cristina. Aquele já não era mais o acervo particular de Mindlin, mas uma biblioteca pública.
Apesar de ter sido um tanto difícil no começo, a bibliotecária relembra que por Cristina ser uma pessoa mais experiente que os outros funcionários, trabalhar com ela proporcionava muitos aprendizados. “Ela tinha muito a transmitir sobre o acervo, e ela falava com muita paixão. Quando gostava muito de uma obra, falava muito sobre ela: curiosidades sobre o conteúdo da obra, sua encadernação, o autor; coisas sobre esse mundo da bibliofilia que ela foi aprendendo com o passar dos anos”, conta Jeanne.

Sala dos Grandes Formatos. Foto: Marcos Santos/USP Imagens.
Por ter trabalhado muitos anos sozinha no mesmo ambiente, a reorganização e o trabalho coletivo foram tarefas desafiadoras para Cristina. Ao pegar qualquer obra, ela sempre se lembrava de onde ela ficava na antiga biblioteca. A curadora buscou preservar a lógica de Mindlin para a organização do acervo o máximo possível, mas sempre tendo em mente que, por questões estruturais no novo ambiente, inúmeras alterações tiveram de ser feitas.
Ao longo de sua carreira profissional, guardiã de uma das brasilianas de Mindlin também trabalhou extensivamente como tradutora, além de organizar e publicar duas obras pela Imprensa Oficial, Memórias de uma Guardadora de Livros e Memórias Esparsas de uma Biblioteca, em 2004; e uma pelo selo Publicações BBM, Rubens Borba de Moraes: Anotações de um Bibliófilo, em 2017.
Cristina Antunes faleceu no dia 26 de março de 2019, aos 68 anos, na capital de São Paulo, deixando um legado de muita dedicação e paixão pelos livros, vivendo em função da biblioteca por quase toda sua vida.
*Bolsista do projeto PUB projeto Fluxo dos objetos digitais da BBM: da estante para os computadores de todo o mundo (conservação, biblioteca digital e comunicação na BBM) — do Programa Unificado de Bolsas de Estudo.