“A Paixão Segundo G.H” publicada em 1964, foi tema da aula ministrada por Yudith Rosenbaum.
Mais um encontro do projeto BBM no Vestibular foi realizado na última quarta-feira, 26 de agosto, pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM). Desta vez, estudantes se reuniram para assistir a uma aula sobre o livro “A Paixão Segundo GH”, de Clarice Lispector. A ministrante da aula foi Yudith Rosenbaum, professora doutora da Universidade de São Paulo na área de literatura brasileira.

Quinta aula do BBM no Vestibular / Foto: Carolina Tae Hide
Segundo a professora, Clarice Lispector é inclassificável. Sem se limitar à literatura introspectiva ou social, a autora construiu algo singular em relação aos seus contemporâneos. Tampouco se encaixou em gêneros — em suas próprias palavras, ”gênero não me pega mais”. Além disso, sua inventividade formal e sintática, que está a serviço de uma busca pelo âmago do ser, formou uma produção literária de originalidade ímpar.
Na crônica “Ainda impossível”, lida durante a aula, a autora revela como, mesmo na infância, não conseguia escrever histórias de maneira usual. Em seu conjunto de obras, porém, é possível encontrar livros mais convencionais do que “A Paixão Segundo G.H”, que já na primeira página, aberta por 6 travessões, causa estranhamento. Com isso em vista, a professora sugeriu a leitura de “Laços de família” (1960), primeiro livro de contos de Clarice, como porta de entrada para sua escrita.

Professora Yudith Rosenbaum ministra aula do BBM no Vestibular / Foto: Carolina Tae Hide
Ela também chamou atenção para o prefácio, intitulado “A possíveis leitores”, no qual Clarice apresenta o livro “como um livro qualquer”, mas afirma que ficaria “contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada”. A professora acrescentou que ele exige do leitor uma abertura para o desconhecido e para a incompreensão, entendida pela autora como uma experiência mais vasta do que a compreensão. Embora passível de leituras à luz da religião, filosofia e psicanálise, a obra foi apresentada sem a pretensão de ser esgotada pelo conhecimento.
Em “A Paixão Segundo G.H”, Clarice apresenta uma personagem cujo cotidiano é atravessado por uma revelação iniciada pela entrada no quarto de Janair — a empregada que se demitira e deixara na parede um desenho de um homem, uma mulher e um cão. A partir disso, a personagem vivencia uma perda de identidade, que transforma sua relação com a alteridade e a desloca do conforto de seu apartamento sofisticado em Copacabana. G.H., antes voltada para si mesma, expande-se e, ao tentar narrar essa experiência, depara-se com os limites da linguagem, outro eixo central da obra.

Alunos participantes da quinta aula do BBM no Vestibular / Foto: Carolina Tae Hide
Ao final da aula, houve um momento de interação entre a professora e os alunos, que puderam esclarecer dúvidas. Também foram sorteados dois exemplares de “Memórias de Marta”. e um exemplar de “História da Literatura Brasileira: dos primeiros cronistas aos últimos românticos”, doados respectivamente pelas editoras Página 8 e EDUSP.
Para quem perdeu a aula ou deseja revê-la, a gravação do encontro está disponível neste link.