A obra Caminho de pedras, publicada em 1937, articula luta política, papel social da mulher e maternidade

Nesta quarta-feira, 12 de agosto, o projeto BBM no Vestibular retomou suas atividades após um mês sem aulas. O encontro foi dedicado à obra Caminho de pedras, de Rachel de Queiroz, e teve como ministrante Mirhiane Mendes de Abreu, professora de Literatura Brasileira da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

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A aula foi iniciada com uma apresentação da autora, uma escritora ambivalente. Embora tenha produzido obras que defendem a emancipação feminina, Rachel posicionou-se contra o movimento feminista; e, se num primeiro momento identificou-se com o comunismo, posteriormente apoiou o golpe militar de 1964. 

Após a contextualização biográfica, a professora direcionou o foco para a trajetória profissional da autora. O Quinze (1930) marcou o início de uma produção literária pautada por temas como o sentido do exílio e o enfrentamento das tragédias da vida, cujo núcleo temático é a mulher. Mirhiane também destacou a linguagem econômica e de poucos adjetivos empregada por Rachel, recurso que sublinha a dureza da existência de suas personagens. 

Caminho de pedras (1937), terceiro romance da autora, foi escrito em estreita relação com as ideias comunistas em circulação no Brasil. Além disso, a obra está contextualizada em um período de ouro para a ficção sobre o Nordeste, com Rachel de Queiroz ocupando posição de destaque. A narrativa tem como cenário a cidade de Fortaleza, em um momento em que grupos de todo o país se organizaram para discutir ideais revolucionários. Ao longo de 27 capítulos, o triângulo amoroso entre os personagens Roberto, Noemi e João Jacques se desenrola em uma trama que articula luta política, papel social da mulher e maternidade.

A professora observou que João Jacques, marido de Noemi, não é construído como um opressor em contraste com um amante libertador. A oposição entre ele e Roberto, por quem Noemi se apaixona, é essencialmente política: enquanto João Jacques é um homem desencantado com o ativismo, Roberto está engajado no movimento socialista. Assim, Noemi vê-se diante de uma escolha complexa entre dois homens que representam diferentes possibilidades existenciais.

Na narrativa, a luta individual e a luta social se misturam no "caminho de pedras" que dá título ao livro. A pedra, assim como no célebre poema de Carlos Drummond de Andrade, No meio do caminho (1928), simboliza os obstáculos. Noemi, porém, opta por atravessá-los, em uma trajetória que culmina em uma gravidez que representa não apenas uma esperança individual, mas também um vislumbre de renovação para o coletivo. 

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Ao final da aula, houve um momento de interação entre a professora e os alunos, que puderam compartilhar suas percepções sobre o livro e esclarecer dúvidas. Também foram sorteados dois exemplares de Memórias de Marta e um exemplar de Homero Portátil: Os principais cantos da Ilíada e da Odisseia, doadas respectivamente pelas editoras Página 8 e EDUSP.

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Para quem perdeu a aula ou deseja revê-la, a gravação do encontro está disponível neste link. Já os slides utilizados pela professora podem ser acessados aqui.