Publicado em 16/06/2026
Por: Helena Almeida
Nesta quarta-feira, dia 11/06, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin promoveu o terceiro encontro do BBM no Vestibular para tratar do livro “Memórias de Martha”, de Júlia Lopes de Almeida. A aula foi ministrada por Laila Correa, Pós-Doutoranda em História Social na Faculdade de Filosofia, História e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e pesquisadora residente da BBM-USP desde 2023.
Os alunos foram ensinados que o livro, posto em circulação como folhetim um ano antes da proclamação da república, foi descrito pela autora como “um reflexo do Rio Imperial”. Por meio de Martha, personagem que narra a própria vida da infância à maturidade, o leitor adentra um momento histórico de reconfiguração do espaço urbano e dos papéis de gênero, embora estes permanecessem fortemente delimitados na sociedade.

Laila Correa (FFLCH-USP) / Público presente na aula do BBM no Vestibular (Foto: Carolina Tae Hide)
No jornal A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira, disponível, assim como Memórias de Martha, no BBM digital, Júlia Lopes de Almeida apontou que “A mulher brasileira conhece que pode querer mais, do que aqui tem querido; que pode fazer mais, do que aqui tem feito”. Ao escrever diversos romances, contos, poesia, livros didáticos e contribuir para importantes jornais da época, a escritora tornou-se prova viva dessa colocação.
Porém, a professora destacou que, apesar de ter sido uma figura respeitada no século XIX e de Memórias de Martha ter sido a primeira obra a retratar a realidade dos cortiços, houve um impedimento para que o livro fosse estudado em perspectiva comparativa com “O Cortiço” (1890), de Aluísio Azevedo: enquanto a obra de autoria masculina entrou para o cânone, a de autoria feminina sofreu apagamento.
Ao avançar para a análise do enredo, a professora apontou para a experiência de fome e de desigualdade social vivida por Martha após a morte do pai, assim como a luta de sua mãe como a nova provedora familiar. Nesse contexto, a educação surge como um meio para a conquista de uma vida digna. Essa conquista, porém, não é capaz de salvar Martha da imposição social do casamento, uma vez que no século XIX tornar-se esposa também significava tornar-se uma mulher respeitável.
Assim, os ouvintes puderam observar como tanto a personagem quanto sua criadora revelam uma opressão de gênero persistente mesmo após a conquista da educação feminina e de espaços profissionais.
No final da aula, a professora resolveu com os alunos as questões cobradas pela Fuvest no ano passado a respeito da obra. Também houve o sorteio de dois exemplares de “Memórias de Martha” e um exemplar de “50 Anos de Feminismo”. A BBM agradece as doações feitas, respectivamente, pelas editoras Companhia das Letras e Edusp.

Ganhadores do sorteio realizado pelo evento / Alunos de terceiro ano do Ensino Médio (Foto: Carolina Tae Hide)
Assim como os outros encontros do BBM no Vestibular, a aula de Memórias de Martha foi transmitida ao vivo pelo canal de YouTube da BBM, onde também está disponível a gravação da aula. Para acessar clique aqui.
Também é possível ter acesso a apresentação de slides utilizadas por Laila clicando aqui.
Projeto
Criado em 2017, o projeto apresenta um ciclo de aulas ministradas por pesquisadores e professores (da USP ou de outras universidades) sobre as nove obras selecionadas pelo vestibular da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest), prova que possibilita o ingresso nos cursos da USP.
Pela segunda vez, a lista de obras literárias obrigatórias para o vestibular da Fuvest é constituída apenas por mulheres autoras de língua portuguesa. A ordem das aulas seguirá a cronologia de publicação das obras, em correspondência à forma divulgada pela Fuvest.
A próxima aula ocorrerá no dia 12 de agosto às 18h e se dedicará ao livro Caminhos de pedra, de Rachel de Queiroz. As inscrições serão abertas no dia 5 de agosto, às 12h, pelo link que estará disponível na bio do perfil da BBM no Instagram.