Vidas Secas

Vidas Secas, Graciliano Ramos

João Marcos Cardoso

Especialista em Pesquisa na BBM

Autorretrato

    Aos 56 anos Graciliano Ramos escreveu um autorretrato. Com sua forma característica de escrever, econômica e direta, conta dados essenciais de sua vida e de seus gostos pessoais. Diz que nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas, que foi casado duas vezes e tem sete filhos, que não gosta de vizinhos e detesta rádio, telefone e campainhas, assim como tem horror às pessoas que falam alto. Diz também que usa óculos e é meio calvo. Não gosta de frutas nem de doces, mas gosta de beber aguardente e de palavrões escritos e falados. Odeia a burguesia. Adora crianças. Quando prefeito de uma cidade do interior de Alagoas, soltava os presos para construírem estradas. Esperava morrer com 57 anos, mas morreu com 60, em 1953.[1]

Romance de 30

    Graciliano escreveu Caetés, seu primeiro romance, aos 34 anos, mas ele seria publicado apenas quando ele tinha 40 anos, em 1933. Publicou outros três romances ao longo da década de 1930: São Bernardo em 1933, Angústia em 1936 e Vidas Secas em 1938. Escreveu também contos, memórias, literatura infanto-juvenil. 

    Sua obra se enquadra no que ficou conhecido posteriormente como Romance de 30. Essa denominação agrupa autores que publicaram obras cujas duas principais caraterísticas são:

    - regionalismo: a maioria dos escritores nasceram na região Nordeste e tematizaram questões dessa região em seus romances. Os dramas da seca no sertão, a decadência social e econômica dos engenhos no agreste nordestino, a vida miserável de trabalhadores rurais e urbanos são temas recorrentes nos romances de Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Jorge Amado e do próprio Graciliano Ramos.

    - realismo: esses escritores buscam transmitir a realidade de maneira direta, explicitando as condições históricas, sociais e econômicas que produzem as tensões narradas nos romances, como a injustiça social e os conflitos entre explorados e exploradores. Seguindo a influência transmitida pelo Modernismo dos anos 1920, os escritores do Romance de 30 adotaram em suas narrativas um vocabulário e estruturas sintáticas coloquiais, usadas na vida cotidiana. Essa é uma das estratégias que os autores usam para criar efeitos realistas, pois busca se aproximar do modo de falar dos tipos sociais retratados nesses romances.   

Vidas secas

    Em entrevista concedida em 1948, Graciliano Ramos resume sua tarefa de escritor: “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso. A palavra foi feita para dizer”. Em Vidas Secas, Graciliano segue à risca seu próprio ideal. O romance retrata uma família de retirantes que percorre a paisagem ressequida da caatinga em busca de melhores condições de vida. Fabiano é um vaqueiro de modos bruscos, poucas palavras, mas que se esforça por compreender sua situação:

Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se aguentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos - exclamações, onomatopeias.  Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas (Ramos, 1978, p. 21)

    Sinha Vitória é forte como o marido, e mais do que tudo sonha em ter uma cama de tiras de couro onde possa dormir confortavelmente. O casal tem dois filhos, nomeados apenas como o menino mais velho e o menino mais novo, que desejam coisas tão simples quanto saber o que significa a palavra “inferno” ou realizar um feito notável, como montar em um bode. Por fim, a cachorra Baleia também é retratada como membro da família e, como os humanos, deseja uma vida mais próspera: sonha com um campo repleto de preás que ela possa caçar.

    A humanidade de Baleia é expressa de forma marcante no capítulo 9 do romance, em que se narra o encontro da cachorrinha com a morte. Nesta parte, o estilo enxuto e ao mesmo tempo forte de Graciliano atinge um nível diferenciado de sofisticação, pois alia a descrição precisa dos objetos e espaços ao retrato sensível das últimas emoções do animal-personagem, às quais se confere a qualidade de sentimentos humanos. Assim descreve o narrador o momento em que Fabiano sacrificou a cachorrinha:

Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia, que se pôs a latir desesperadamente (Ramos, 1978, pp. 92-93).

    Mais adiante, Baleia vive seus momentos finais:

Afinal esmoreceu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas. (...). Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde Sinha Vitória guardava o cachimbo (Ramos, 1978, p. 94 e pp. 95-96).

    A riqueza expressiva de Vidas Secas está presente em seu próprio título. A secura das vidas desses retirantes é uma associação de causas naturais e sociais. O fator natural é o clima árido do agreste impede que as lavouras produzam e o gado engorde. Já no campo social, destacam-se a exploração do proprietário que tira uma parte dos ganhos que cabem a Fabiano e o autoritarismo do soldado amarelo, que usa arbitrariamente seu poder contra o vaqueiro. Miséria e exploração produzem vidas secas, que o romance descreve também de maneira seca: frases curtas, vocabulário enxuto, poucos adjetivos são meios literários que o escritor utilizou para expressar realisticamente o percurso de Fabiano, Sinha Vitória, os meninos mais novo e mais velho e Baleia pelo semiárido nordestino. Esses personagens conversam pouco entre si, os diálogos são curtos, as palavras são poucas. Cada um deles encontra dificuldades para se compreender, faltam palavras para expressarem a si mesmos o que são. Ao transportar para a linguagem do romance as experiências desses retirantes que lutam por uma vida mais digna, Graciliano realizou o grande feito artístico de Vidas Secas. Comparando este livro com outras obras do autor, o crítico Álvaro Lins (1978, pp. 163-165) dirá, em seu posfácio, que Vidas secas é o romance mais humano de Graciliano: se em São Bernardo e Angústia sua atitude tendia ao sarcasmo, em Vidas secas há indisfarçável compaixão e simpatia pelo vaqueiro Fabiano e sua família. É, também, o livro que contém maior sentimento da terra nordestina: áspera, dura e cruel, sem deixar de ser amada pelos que a ela estão ligados.

 

Referências

LINS, Álvaro. “Posfácio: Valores e Misérias das Vidas Secas”, in: RAMOS, Graciliano. Vida Secas. 41ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1978.

RAMOS, Graciliano. Vida Secas. 41ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1978.


[1] O autorretrato completo está disponível em: http://graciliano.com.br/site/autorretrato/