Nas imagens sobre o Brasil produzidas pelos viajantes estrangeiros, a "família brasileira", assim nomeada, consiste em um senhor, sua mulher, filhos ou filhas e, invariavelmente, alguns escravizados, cujas famílias raramente aparecem. Essas imagens que se repetem criaram a percepção dominante da família brasileira como branca, patriarcal, nos moldes europeus, mas obviamente as famílias que aqui viviam tinham diversas configurações.
Assim como a mandioca, o algodão já era amplamente utilizado e cultivado pelos povos originários do Brasil muito antes da chegada dos colonizadores. Diversas etnias usavam o algodão para fazer redes, cordas, tecidos para carregar bebês e armas. As sementes da planta eram transformadas em alimento, após serem cozidas como um mingau, e as folhas eram usadas para curar feridas. Autores dos primeiros relatos sobre o Brasil destacaram o uso do algodão pelos indígenas e o cultivo dessa planta se disseminou também entre os colonos a partir do século XVII, se tornando depois produto de exportação.
Construído entre 1779 e 1783, o Passeio Público do Rio de Janeiro pretendia modernizar e "europeizar" a cidade com a criação de um espaço de lazer para a população, e foi o primeiro parque desse tipo criado nas Américas. O então vice-rei do Estado do Brasil, Dom Luís de Vasconcelos e Sousa, incumbiu o artista Valentim da Fonseca e Silva, o Mestre Valentim, de realizar o projeto e a obra, em que foram usados mão-de-obra e recursos provenientes do presídio da Ilha das Cobras, que faturava com o açoite de escravizados e com o trabalho de prisioneiros que ali viviam. Assim, o Passeio Público foi inaugurado e passou a servir à elite que chegava à tarde para tomar a fresca.
Como desenhista de missão diplomática britânica na China, o pintor e ilustrador inglês William Alexander passou pelo Brasil em 1792, quando realizou desenhos que mostram um pouco da calmaria da cidade do Rio de Janeiro no período colonial, antes da chegada da família real, em 1808. Se para o governo britânico a missão terminou em um fiasco comercial, para o jovem pintor foi um divisor de águas em sua carreira.
A Volta Grande do rio Xingu, no Pará, despertou interesse e medo nos colonizadores que chegaram a essa região. Os jesuítas foram os primeiros a se aventurar rio acima e, em 1750, o austríaco Rochus de Hundertpfund fundou a missão que ficou conhecida como Tavaquara. Quase um século depois, o príncipe da Prússia, Adalbert Heinrich Wilhelm, chegou a esse mesmo povoado de difícil acesso, onde hoje fica o município de Altamira, fortemente afetado pela construção da Hidrelétrica de Belo Monte.
O pau-brasil, primeiro produto de exploração e exportação do país, devido ao interesse comercial pela tinta vermelha extraída de sua madeira, acabou dando o nome definitivo à recém batizada Terra de Santa Cruz. Os nomes utilizados pelos povos originários, como arabutã, ibirapitanga ou orabutã, foram praticamente esquecidos, apesar de os indígenas terem sido a principal mão-de-obra utilizada no contrabando dessa árvore sempre explorada e hoje em risco de extinção.
Os nomes da árvore vermelha que batizou o Brasil
Capitão da artilharia da Marinha francesa e pintor, Adolphe d'Hastrel (1805-1874) esteve no Brasil em 1840, quando voltava de uma missão militar no Rio da Prata. Durante mais de vinte anos, o francês aproveitou suas missões militares para desenhar e pintar paisagens dos lugares por onde passava. Após sua estadia no Brasil, publicou na França Rio de Janeiro ou Souvenirs du Brésil, em 1847, com litografias de paisagens urbanas com tipos humanos, em geral negros que, junto com a vegetação às vezes fora de lugar, dão o aspecto pitoresco tão caro aos pintores românticos da primeira metade do século XIX.
O tatu, o tamanduá e a preguiça são os remanescentes atuais do grupo dos xenartros, mamíferos originários da América do Sul há cerca de 60 milhões de anos. O nome do grupo vem do grego xenos, que quer dizer estranho, e arthros, articulação. A articulação estranha é característica desses três animais que causaram espanto nos viajantes europeus no Brasil, que nunca os haviam visto e produziram imagens e textos sobre eles.
Embora não tenha sido uma criação ou exclusividade do país, a cadeirinha de arruar se tornou um símbolo de riqueza e da sociedade escravista brasileira. Foi o meio de locomoção mais usado pelas senhoras e senhores ricos ou da nobreza e chegou aqui pelas mãos dos portugueses que já o utilizavam. Enquanto as cadeirinhas ainda não podiam ser importadas ou fabricadas no Brasil, os portugueses usaram a rede, utensílio de origem indígena, desconhecido dos europeus até sua chegada na América, para serem transportados.
Há 200 anos, em 17 de julho de 1825, o pintor Charles Landseer chegou ao Rio de Janeiro, a bordo do navio HMS Wellesley, e produziu durante a viagem centenas de desenhos e aquarelas reunidos no conjunto que ficou conhecido como Álbum Highcliffe. Entre paisagens do Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Espírito Santo, São Paulo e Santa Catarina, lugares por onde passou, Landseer se dedicou também a retratar os tipos humanos que encontrou em seu percurso, principalmente os africanos ou afrodescendentes, em desenhos que vão de retratos em close a grupos com vestimentas minuciosamente desenhadas.
Atualmente, há cerca de 187 milhões de cabeças de gado no país e devem ser a população de "imigrantes" que mais cresceu aqui desde 1534, quando os primeiros bovinos foram trazidos para São Vicente, no atual estado de São Paulo, pela espanhola Ana Pimentel, casada com Martim Afonso de Sousa. A expansão das criações de gado, primeiro usado como força de tração nos engenhos de cana-de-açúcar, começou pelo litoral e depois invadiu o sertão e as florestas, iniciando uma série de conflitos de terra com os povos indígenas, que acontecem até hoje.
Duas pinturas do francês Adolphe Théodore Jules Martial Potémont, uma paisagem urbana e outra na beira de um rio, datadas de 1870, não trazem referências aos lugares retratados. Mais conhecido como gravador do que como pintor, Potémont viveu por dez anos na ilha da Reunião, colônia francesa no oceano Índico, onde também pintou diversas paisagens no mesmo estilo, que privilegia a observação da atmosfera e de sensações locais em detrimento do registro documental ou geográfico das regiões.
A variedade de frutas em imagens da Brasiliana Iconográfica mostra o quanto as diferentes sociedades indígenas da América interagiram antes da chegada dos colonizadores e também como esses últimos foram rápidos ao introduzir no território brasileiro diversas espécies exóticas. Autores estrangeiros, que estiveram no Brasil no século XVI, encontraram aqui plantas nativas como o abacaxi, o caju e o jenipapo, mas também frutas da Ásia, como a laranja, o limão, a uva e o figo. Pesquisas também comprovam que os indígenas brasileiros consumiam frutas originárias da América central, como o abacate e o cacau, bem antes da chegada dos colonizadores.
Quando abdicou de seu reinado no Brasil e partiu para a Europa, em 1831, para tentar recuperar o trono português tomado por seu irmão Miguel I, D. Pedro I buscou apoio em outros países, como a Inglaterra e a França, e enfrentou longas batalhas que se encerraram apenas em 1834, alguns meses antes de sua morte. Três charges, publicadas em 1833 no periódico ilustrado francês La Caricature, mostram como a guerra entre os irmãos repercutiu na Europa e satirizam as lutas das monarquias pelo poder.
As fraquezas de D. Pedro e da monarquia nas charges francesas
A aquarela Negro feiticeiro, de Jean-Baptiste Debret, chama a atenção pela mistura de referências e pelo tema pouco abordado pelo pintor francês em suas obras. Além de estar bem vestido, o homem retratado traça um círculo no chão que remete a formas de magia. Os pesquisadores se dividem entre análises que identificam referências a rituais de religiões europeias, africanas ou mesmo uma mistura de diferentes práticas.
As instituições militares brasileiras foram resistentes à presença de homens não brancos em suas frentes, mas seja pela necessidade, por interesse ou de maneira forçada, eles tiveram papel decisivo em diversas batalhas. Ainda no século XVII, os terços (batalhões) de homens negros ajudaram nas lutas contra os holandeses no Nordeste e os indígenas também foram recrutados pelos portugueses para combater seus inimigos.
No centro do Rio de Janeiro, a Praça XV resume a história da formação do Brasil. Vestígios arqueológicos comprovaram a existência de um assentamento tupinambá no local, quando portugueses e franceses ali chegaram. Também naquela praia desembarcaram grande parte dos africanos escravizados trazidos à cidade até 1770. Essa população de indígenas, africanos e europeus deu vida a essa região de várzea que, no século XVIII, se tornaria o centro do poder no Rio de Janeiro, com o governo e a igreja ali reunidos.
O centro do poder no Rio de Janeiro, de praia de Piaçaba a Praça XV
Os viajantes que chegaram no Brasil no início do século XIX encontraram terras já marcadas por inúmeros episódios de queimadas, que ocorriam desde antes da colonização. O botânico francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) e o naturalista alemão Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868), que viajaram pelo cerrado, no interior do Brasil, fizeram muitas críticas à prática das queimadas, pelos seus efeitos nocivos, como a degradação do solo a longo prazo e a perda de biodiversidade. Entretanto, alguns naturalistas estrangeiros, como o botânico dinamarquês Eugenius Warming (1841-1924), destacaram também os benefícios que a prática podia trazer para a fertilização do solo.
O pintor e gravador suíço Frédéric Salathé (1793-1858) produziu as litografias de Souvenirs de Rio de Janeiro dessinés d’aprés nature & publiés par J. Steinmann, um dos álbuns mais raros entre os publicados na primeira metade do século XIX. Em sua juventude, Salathé morou na Itália e lá participou de um movimento de artistas que se dedicavam a pintar ao ar livre e que ficaram conhecidos como precursores do impressionismo. Além de assinar como gravador em diferentes edições do álbum de Steinmann, ele também reproduziu em aquarelas as paisagens do Brasil a que teve acesso, sem nunca ter estado aqui.
Nos primeiros séculos da colonização, o que hoje se conhece como o bairro de Botafogo era uma área remota e alagadiça, pouco habitada ou mesmo frequentada pelos que vinham se estabelecer no Rio de Janeiro. Somente no início do século XIX, a urbanização do bairro começou lentamente, com a criação de chácaras com casas luxuosas para a moradia de nobres e comerciantes, sobretudo os ingleses. Na década de 1840, com a implantação dos serviços de transporte coletivo, a população de Botafogo passou a crescer e a se diversificar e o bairro, a perder sua característica de elite.
Nos primeiros séculos da colonização, os artistas europeus tiveram que se fiar em relatos e algumas poucas imagens produzidas pelos exploradores para elaborar representações que alimentavam a imaginação e a curiosidade sobre o Novo Mundo tanto de poderosos, como reis e a igreja, como dos homens comuns. Nos séculos XVI e XVII, artistas que nunca haviam saído da Europa produziram representações alegóricas da América e moldaram por muito tempo a percepção europeia sobre esse continente e sobre si mesma. Em comum, essas alegorias apresentavam uma mulher nua ou quase, vegetação e animais exóticos e cenas de rituais antropofágicos retirados de contexto.
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